{"id":1468,"date":"2010-12-20T19:33:30","date_gmt":"2010-12-20T22:33:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=1468"},"modified":"2010-12-20T19:51:21","modified_gmt":"2010-12-20T22:51:21","slug":"assassinos-de-dialogos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=1468","title":{"rendered":"Assassinos de di\u00e1logos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos-300x285.jpg\" alt=\"\" title=\"assassinos_dialogos\" width=\"300\" height=\"285\" class=\"alignright size-medium wp-image-1469\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos-300x285.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Algumas palavras e express\u00f5es verbais e n\u00e3o verbais parecem ter o poder de destruir qualquer forma de di\u00e1logo, transportando seus participantes do prazeroso e criativo conversar ao doloroso combate pelo direito de propriedade da verdade.<\/p>\n<p>Em qualquer dicion\u00e1rio que se pesquise, di\u00e1logo sempre estar\u00e1 relacionando a uma conversa entre duas ou mais pessoas em busca de um entendimento. Gosto especialmente do significado que Humberto Maturana e Ximena D\u2019\u00c1vila, fundadores da Biologia-Cultural, d\u00e3o ao di\u00e1logo: \u201ccom-versar\u201d ou dan\u00e7ar junto. <\/p>\n<p>Um bom di\u00e1logo \u00e9, de fato, uma boa dan\u00e7a, e uma dan\u00e7a criada no improviso, onde os participantes constroem coletivamente sua pr\u00f3pria coreografia a partir da percep\u00e7\u00e3o que cada um tem de si mesmo e do outro. <\/p>\n<p>No di\u00e1logo, cada dan\u00e7arino tem espa\u00e7o para dar seu passo, o que pressup\u00f5e independ\u00eancia, mas, ao mesmo tempo, co-depend\u00eancia, na medida em que, s\u00f3 juntos, passo a passo, entre pulsos e repousos, complementando talentos diversos, \u00e9 poss\u00edvel compor algo maior do que a express\u00e3o individual seria capaz de criar. <\/p>\n<p>O que se cria de novo \u00e9 o significado comum, a constru\u00e7\u00e3o de um conte\u00fado de informa\u00e7\u00f5es, sejam s\u00edmbolos, palavras ou gestos, que fa\u00e7am sentido para os que participam do di\u00e1logo. No entanto, tanto na dan\u00e7a quanto no di\u00e1logo, \u00e9 muito mais frequente o controle e a competi\u00e7\u00e3o do que a co-ordena\u00e7\u00e3o  e a co-elabora\u00e7\u00e3o, o exerc\u00edcio do poder ao inv\u00e9s do exerc\u00edcio do amor.<\/p>\n<p>E, quando um indiv\u00edduo ou um grupo de indiv\u00edduos assume o comando dos demais, perde-se a raz\u00e3o primeira do di\u00e1logo, na medida em que, no lugar de um significado comum, s\u00f3 poss\u00edvel de ser constru\u00eddo coletivamente, surge o significado \u00fanico, estabelecido pelo indiv\u00edduo ou grupo de indiv\u00edduos que controla o di\u00e1logo. Significado \u00fanico \u00e9 o mesmo que verdade \u00fanica, ou realidade \u00fanica, ou raz\u00e3o \u00fanica.<\/p>\n<p><strong>Vivemos imersos no &#8220;com-bater&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o reconhecer as m\u00faltiplas verdades que emergem num di\u00e1logo \u00e9 o mesmo que n\u00e3o reconhecer as pessoas que dele participam. Quando n\u00e3o se inclui a verdade do outro, n\u00e3o se valida a sua presen\u00e7a. Sem presen\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 autonomia, condi\u00e7\u00e3o essencial para a exist\u00eancia de qualquer processo criativo co-elaborativo.<\/p>\n<p>O melhor laborat\u00f3rio para observar os assassinos de di\u00e1logos \u00e9 nosso pr\u00f3prio viver, as experi\u00eancias que vivemos na altern\u00e2ncia entre o \u201ccom-versar\u201d e o \u201ccom-bater\u201d. O dificultador nesse processo \u00e9 que tendemos a apontar como assassinos pessoas e, preferencialmente, outras pessoas, ao inv\u00e9s de n\u00f3s mesmos. E, quando isso acontece, o pr\u00f3prio exerc\u00edcio de refletir torna-se ele mesmo mais uma manobra para refor\u00e7ar o \u201ccom-bater\u201d em detrimento do \u201ccom-versar\u201d, na medida em que se estabelece a rela\u00e7\u00e3o entre um que tem raz\u00e3o e outro que n\u00e3o a tem. Nos seria muito mais \u00fatil se associ\u00e1ssemos os assassinos de di\u00e1logos a palavras e express\u00f5es verbais e n\u00e3o verbais, e n\u00e3o aos seus autores. Isso porque, se elas se originaram no outro ou em n\u00f3s, sempre temos a liberdade e o poder de reverter seu fluxo destrutivo e separatista para os princ\u00edpios criativo e unitivo fundamentadores do di\u00e1logo. N\u00e3o importa quem come\u00e7ou a guerra, n\u00f3s podemos interromp\u00ea-la a qualquer momento \u2013 claro, se tivermos consci\u00eancia de que estamos em uma guerra e n\u00e3o a queremos viv\u00ea-la.<\/p>\n<p><strong>Consci\u00eancia como caminho para o di\u00e1logo<\/strong><\/p>\n<p>Parafraseando Conf\u00facio, pode-se atingir a consci\u00eancia pela experi\u00eancia, pela contempla\u00e7\u00e3o ou pela medita\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia costuma ser a mais penosa, por\u00e9m tamb\u00e9m tem se mostrado a mais efetiva, na medida em que \u00e9 o caminho mais simples para quem, como n\u00f3s, vive imerso na cultura ocidental do fazer. <\/p>\n<p>Mas como a experi\u00eancia pode nos conscientizar sobre os rumos do di\u00e1logo? A \u201cexperi\u00eancia sentida\u201d nos aponta rapidamente se estamos ou n\u00e3o no caminho do bem estar \u2013 leia-se caminho do amar. Ningu\u00e9m que se sente, de alguma forma, amea\u00e7ado por outro, est\u00e1 no caminho do bem estar. Portanto, no espa\u00e7o de conv\u00edvio com o outro, qualquer sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, como aperto no peito, taquicardia, suor frio, indisposi\u00e7\u00e3o estomacal, dor de cabe\u00e7a, press\u00e3o alta, j\u00e1 \u00e9 um indicativo de que podemos estar em um \u201ccom-bate\u201d e n\u00e3o em um \u201ccom-versar\u201d. Nosso corpo nos diz onde estamos e, a partir dessa consci\u00eancia, podemos escolher se queremos ou n\u00e3o nos manter nesse espa\u00e7o; sim, podemos escolher nos manter em um espa\u00e7o de mal estar, o que fazemos com relativa frequ\u00eancia, pois a dor e o sofrimento, por mais paradoxal que possa parecer, costumam oferecer algum tipo de ganho a quem escolhe sustent\u00e1-las em seu modo de viver.<\/p>\n<p>Outra alternativa para se acessar a consci\u00eancia se d\u00e1 por meio da \u201cexperi\u00eancia pensada\u201d.  Aqui j\u00e1 nos encontramos em uma din\u00e2mica reflexiva mais sofisticada, onde observamos n\u00e3o apenas sinais do corpo, mas s\u00edmbolos que se manifestam no espa\u00e7o relacional. A comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal \u00e9 a que costuma \u201cfalar\u201d mais alto. A express\u00e3o do rosto, a posi\u00e7\u00e3o dos bra\u00e7os, o movimento das m\u00e3os, a postura do corpo, tudo isso nos revela, em n\u00f3s e no outro, em que espa\u00e7o estamos vivendo \u2013 no espa\u00e7o do bem estar ou no do mal estar?<\/p>\n<p>Al\u00e9m de nossos sentires \u00edntimos e da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal, as palavras tamb\u00e9m t\u00eam o poder de gritar em nossos ouvidos o que, de fato, est\u00e1 acontecendo. S\u00f3 que, de ouvidos fechados, n\u00e3o ouvimos absolutamente nada. E ouvido aberto, no caso do di\u00e1logo, \u00e9 o \u201couvido curioso\u201d, que adia o julgamento e assim nos ajuda a associar palavras com os sentires \u00edntimos e a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal.<\/p>\n<p>Quando conseguimos manter nossos ouvidos abertos, identificamos mais facilmente os verdadeiros assassinos dos di\u00e1logos: as generaliza\u00e7\u00f5es, as expectativas, os julgamentos e a intoler\u00e2ncia ao erro.<\/p>\n<p><strong>Generaliza\u00e7\u00f5es ignoram que somos seres em transforma\u00e7\u00e3o permanente<\/strong><\/p>\n<p>Uma boa pista para identificar a a\u00e7\u00e3o das generaliza\u00e7\u00f5es \u00e9 o uso das palavras nunca e sempre. \u201cVoc\u00ea sempre faz isso.\u201d \u201cVoc\u00ea nunca repara em mim\u201d. Express\u00f5es como essas costumam acender o pavio da disc\u00f3rdia, posto que s\u00e3o carregadas de injusti\u00e7a. Ningu\u00e9m \u00e9 sempre &#8211; ou nunca &#8211; assim ou assado. Tudo bem que quem fala tal coisa est\u00e1, na verdade, carregando nas tintas para expressar sua dor por algo que o outro tenha feito ou deixado de fazer, mas \u00e9 bom que ele ou ela saiba que, ao fazer isso, dificilmente ir\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o da \u201ccom-versa\u201d. Afinal, quem \u00e9 reduzido a um padr\u00e3o fechado, sente-se \u2013 pasme! \u2013 aprisionado, levando-o ou levando-a a indignar-se com a injusti\u00e7a, o que acaba por estimular ou potencializar o \u201ccom-bate\u201d.<\/p>\n<p><strong>Expectativas afundam qualquer relacionamento na lama do rancor<\/strong><\/p>\n<p>\u201cExpressar sua dor por algo que o outro tenha feito ou deixado de fazer\u201d \u00e9 uma frase que n\u00e3o serve apenas para alertar sobre os perigos das generaliza\u00e7\u00f5es. O que se esconde por tr\u00e1s dela talvez seja algo ainda mais perverso: as expectativas. Num relacionamento, expectativas s\u00e3o o que esperamos que o outro fa\u00e7a para n\u00f3s e que, n\u00e3o raras vezes, n\u00e3o s\u00e3o claras nem para n\u00f3s, que dir\u00e1 para o outro. A\u00ed surge a fun\u00e7\u00e3o da adivinha\u00e7\u00e3o. \u201cMeu bem, est\u00e1 tudo bem com voc\u00ea?\u201d Ao que ele ou ela responde, amuado ou amuada. \u201cT\u00e1! Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 vendo como estou bem?\u201d J\u00e1 que n\u00e3o adivinhamos como atender a expectativa do outro, merecemos ser punidos pela ironia! N\u00e3o h\u00e1 relacionamento que sobreviva \u00e0s expectativas. Mais dia, menos dia, ele ir\u00e1 ruir, seja de maneira escancarada ou velada.<\/p>\n<p><strong>Certezas cegam<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi isso o que voc\u00ea disse.\u201d Ainda me surpreendo quando me deparo com esse tipo de frase. Como o outro \u00e9 capaz de afirmar com tanta certeza o que eu disse ou n\u00e3o disse? N\u00e3o s\u00f3 afirma, como briga comigo quando resolve me convencer de que eu n\u00e3o disse o que eu disse. E ainda insiste: \u201cTenho certeza disso!\u201d Parece conversa de louco e, bem, na verdade, \u00e9, sim, conversa de louco. No entanto, \u00e9 o tipo de conversa que acontece em nosso cotidiano com uma regularidade assombrosa. Depois de chuchu em cerca, pessoas com certezas \u00e9 o que mais tem no mundo \u2013 e certezas n\u00e3o apenas sobre elas ou sobre coisas do mundo, mas certezas sobre n\u00f3s. Espantoso o poder dessa gente! Deveriam us\u00e1-lo para ganhar na loteria e n\u00e3o para julgar os outros!<\/p>\n<p><strong>A intoler\u00e2ncia ao erro \u00e9 o golpe baixo dos donos da verdade<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acredito que voc\u00ea fez isso!\u201d Quem nunca se enganou e, antes que pudesse perceber, levou o carimbo de ignorante na testa? A intoler\u00e2ncia ao erro \u00e9, obviamente, a outra face do cultivo das certezas. E \u00e9 tamb\u00e9m usada na base de dois pesos, duas medidas. Para quem se acha sempre certo, levar do outro o carimbo de burro \u00e9 comprar briga feia. Os donos da verdade alegam que j\u00e1 s\u00e3o auto-exigentes o suficiente, um eufemismo para disfar\u00e7ar a intoler\u00e2ncia com a cr\u00edtica externa.<\/p>\n<p>Embora cada assassino possua seus pr\u00f3prios m\u00e9todos para aniquilar di\u00e1logos, todos fazem uso de uma arma comum \u2013 uma arma que combina sentires \u00edntimos, express\u00e3o verbal e express\u00e3o n\u00e3o-verbal  e, o que \u00e9 pior, de opera\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples que pode ser manipulada at\u00e9 por uma crian\u00e7a. Basta apontar o dedo para o outro, acompanhando esse gesto pela palavra \u201cvoc\u00ea\u201d e disparar o gatilho da culpa. Dependendo do momento escolhido \u2013 quanto mais fr\u00e1gil o outro, melhor \u2013 e da intensidade com que a arma for utilizada, pode-se devastar n\u00e3o apenas um di\u00e1logo como a rela\u00e7\u00e3o de uma vida inteira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos-300x285.jpg\" alt=\"\" title=\"assassinos_dialogos\" width=\"300\" height=\"285\" class=\"alignright size-medium wp-image-1469\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos-300x285.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/assassinos_dialogos.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Algumas palavras e express\u00f5es verbais e n\u00e3o verbais parecem ter o poder de destruir qualquer forma de di\u00e1logo, transportando seus participantes do prazeroso e criativo conversar ao doloroso combate pelo direito de propriedade da verdade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[47,61,65,64,14,62,63],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1468"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1468"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1468\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3124,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1468\/revisions\/3124"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}