{"id":1657,"date":"2011-04-17T17:13:22","date_gmt":"2011-04-17T20:13:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=1657"},"modified":"2011-04-17T17:13:22","modified_gmt":"2011-04-17T20:13:22","slug":"a-fuga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=1657","title":{"rendered":"A fuga"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga-300x209.jpg\" alt=\"\" title=\"fuga\" width=\"300\" height=\"209\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1658\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga-300x209.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Trabalhar demais. Comer demais. Beber demais. Pular de um relacionamento para o outro o tempo inteiro. Isolar-se do mundo: numa televis\u00e3o, num livro, num esporte, numa paix\u00e3o. Afundar no mundo das drogas. N\u00e3o ter coragem de tocar al\u00e9m da superf\u00edcie das coisas, das pessoas, de sua pr\u00f3pria vida. Desde que nascemos, inventamos \u201cn\u201d maneiras de fugir. Somos craques nisso. Tanto \u00e9 que, se formos reparar direito, sempre estamos fugindo de algo ou algu\u00e9m ou os dois. Claro que existem v\u00e1rios tipos de fuga altamente defens\u00e1veis. Fugir dos chatos, por exemplo, \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. At\u00e9 mesmo a fuga mais ingl\u00f3ria de todas merece respeito: ao tentarmos fugir da morte, vamos ficando mais um pouquinho&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 das fugas para sobreviver a que me refiro. \u00c9 das fugas para n\u00e3o viver. \u00c9 da corrida autom\u00e1tica, inercial, instintiva em que nos metemos na \u00e2nsia de encontrarmos sossego. Em nome de uma coisa a que chamamos seguran\u00e7a, deixamos os medos para tr\u00e1s, nos escondendo dos bichos-pap\u00f5es que se escondem atr\u00e1s de portas e embaixo da cama. Observ\u00e1-los pelo espelho retrovisor d\u00e1 uma enorme sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio. <\/p>\n<p>\u201cE a\u00ed, como vai?\u201d<br \/>\n\u201cBem melhor, agora que a tempestade j\u00e1 passou&#8230;.\u201d<br \/>\nA tempestade passou ou s\u00f3 fomos n\u00f3s que decidimos n\u00e3o mais olhar para ela? Fechamos os olhos e o bicho-pap\u00e3o deixa de existir, como nas brincadeiras de esconde-esconde de nossa primeira inf\u00e2ncia. O mundo s\u00f3 existe quando estamos de olhos abertos. Com o tempo, aprendemos a requintar a t\u00e9cnica fugindo cada vez mais para longe. At\u00e9 que o mundo fique pequeno outra vez. O nosso mundo. <\/p>\n<p>Para qualquer lado que fujamos, nosso mundo vai conosco. N\u00e3o h\u00e1 como fugir de n\u00f3s mesmos. \u00c9 simples, f\u00edsico e racional. Ent\u00e3o, por que, afinal, \u00e9 o que mais fazemos na vida? N\u00e3o \u00e9 racional, mas fugimos. E n\u00e3o h\u00e1 nem como tentar justificar que correr faz parte de nossa natureza. N\u00e3o nos foi dado equipamento adequado para isso. Nossa aerodin\u00e2mica \u00e9 apropriada para caminhar. Quando caminhamos, deixamos que nossas ideias se movam de um lado para o outro. Quando corremos, o que fazemos \u00e9 chacoalh\u00e1-las. <\/p>\n<p>Ideias n\u00e3o s\u00e3o boas de pegar no tranco. Elas t\u00eam o seu tempo, que n\u00e3o \u00e9 o da corrida. Deixamos as coitadas confusas e n\u00f3s vamos juntos, nessa corrida rumo a lugar nenhum, rumo a um porto seguro que nunca chega. Corremos na contram\u00e3o, na ilus\u00e3o de que estamos fugindo da inseguran\u00e7a quando, na verdade, corremos em dire\u00e7\u00e3o a ela. O porto seguro n\u00e3o est\u00e1 fora. Est\u00e1 dentro. Com os bichos-pap\u00f5es e as tempestades, ainda somos mais seguros que o mundo l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Proponho, ent\u00e3o, que criemos o clube dos bichos-pap\u00f5es, um lugar onde as pessoas possam se encontrar e soltar um pouco os seus bichos. Seria uma boa forma para descobrir que os nossos n\u00e3o s\u00e3o nem piores nem melhores do que os dos outros. Aposto at\u00e9 que muitos deles v\u00e3o acabar se apaixonando e indo morar em outro lugar. Mas, mais do que tudo, acredito que, quando os colocamos para fora, eles dificilmente voltam. Na verdade, acabamos descobrindo que \u00e9ramos n\u00f3s que o mant\u00ednhamos presos. E uma vez que se ganha a liberdade, bicho-pap\u00e3o \u00e9 que nem gente: abre asas e voa para longe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga-300x209.jpg\" alt=\"\" title=\"fuga\" width=\"300\" height=\"209\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1658\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga-300x209.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/fuga.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Trabalhar demais. Comer demais. Beber demais. Pular de um relacionamento para o outro o tempo inteiro. Isolar-se do mundo: numa televis\u00e3o, num livro, num esporte, numa paix\u00e3o. Afundar no mundo das drogas. 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