{"id":266,"date":"2008-01-05T19:32:02","date_gmt":"2008-01-05T19:32:02","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-04T23:10:57","modified_gmt":"2010-11-04T23:10:57","slug":"eu-e-o-outro-1","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=266","title":{"rendered":"Eu e o outro"},"content":{"rendered":"<p>Tem gente que reza para Sartre todos os dias antes de dormir. Durante uma viagem de f&eacute;rias pelo sul da Bahia, conheci um sujeito interessante. Nascido carioca e crescido em Bras&iacute;lia, ele estava vivendo uma esp&eacute;cie de lua de mel em seu segundo casamento e me contou sobre os amigos de sua gera&ccedil;&atilde;o &ndash; um pessoal de cinq&uuml;enta a sessenta anos. Um deles, boa pinta e bem de vida, seria um namorador convicto, s&oacute; que admite que quer morrer s&oacute;. Basta dar um ano de namoro, para ele desfazer o relacionamento, tamanho &eacute; o medo &ndash; ou seria o trauma? &ndash; da vida a dois. <\/p>\n<p>Viver com outra pessoa &eacute; realmente uma arte que nem todos conseguem aprender. Ou desfrutar. Porque, se encarada como uma li&ccedil;&atilde;o, vira um tormento daqueles. &Eacute; mais ou menos como o artista: ele cria porque criar &eacute; o natural a ser feito.&nbsp; Um artista segue a sua natureza e, a partir deste movimento quase impulsivo, aprimora sua t&eacute;cnica. Viver a dois &eacute; a mesma coisa. Seguimos nossa voca&ccedil;&atilde;o animal para nos juntarmos com o outro e a&iacute;, para que essa uni&atilde;o seja poss&iacute;vel, vamos aprendendo os segredos da conviv&ecirc;ncia. Aprendemos porque precisamos e queremos. <\/p>\n<p>O primeiro segredo &eacute; que nenhuma rela&ccedil;&atilde;o sobrevive apenas na base de agradar ao outro. O limite da concess&atilde;o &eacute; estabelecido pelo que pode ser uma viol&ecirc;ncia aos nossos pr&oacute;prios limites. E os nossos limites podem ser estabelecidos a partir do ego ou de nossos valores. <\/p>\n<p>Quando &eacute; o ego que manda no jogo, o limite &eacute; dado pela vontade. Eu quero ou n&atilde;o quero isso. Eu gosto ou n&atilde;o gosto daquilo. <\/p>\n<p>Quando o limite &eacute; mais profundo, ou seja, &eacute; estabelecido por um valor, a&iacute; n&atilde;o se trata mais apenas de abrir m&atilde;o do ego. N&atilde;o se abre m&atilde;o de valores, quaisquer que eles possam ser &ndash; sejam considerados bons ou ruins. Porque eles s&atilde;o o miolo da cebola. Constru&iacute;mos o que somos a partir de nossos valores. Se precisarmos passar em cima deles para que o outro seja feliz, o pre&ccedil;o ser&aacute; nossa infelicidade, e a&iacute; voc&ecirc; ser&aacute; mais um a cultuar o Santo Sartre. <\/p>\n<p>O segundo segredo &eacute; que o di&aacute;logo aberto e sincero pode acabar com o seu relacionamento, mas esta &eacute; a &uacute;nica forma de fazer com que ele sobreviva ao tempo. Esse mesmo sujeito que conheci em minhas f&eacute;rias disse que seu primeiro casamento acabou porque a esposa dele se recusava a conversar. Contou que essa situa&ccedil;&atilde;o chegou, certa vez, a dois meses de sil&ecirc;ncio! Quando n&atilde;o falamos o que est&aacute; se passando conosco, damos ao outro a oportunidade de imaginar o que quiser sobre n&oacute;s. &ldquo;Ele n&atilde;o me ama mais!&rdquo; &ldquo;Ele tem outra mulher!&rdquo; E voc&ecirc; pode estar &ldquo;s&oacute;&rdquo; muito puto porque ela chamou sua aten&ccedil;&atilde;o por uma besteira qualquer na frente de seus amigos. Mas, como voc&ecirc; sabe &ndash; ou pensa saber &ndash; que dizer que ficou puto pode fazer com que ela questione uma s&eacute;rie de coisas, voc&ecirc; prefere ficar em sil&ecirc;ncio. &Eacute; menos enche&ccedil;&atilde;o de saco para o seu lado, voc&ecirc; pensa. <\/p>\n<p>O terceiro segredo &eacute; justamente esse: n&atilde;o existe relacionamento sem enche&ccedil;&atilde;o de saco. O outro quer que voc&ecirc; seja t&atilde;o legal e maravilhoso quanto ele &eacute; &#8211;&nbsp; ou pensa ser -, e voc&ecirc; deseja &ndash; &agrave;s vezes, exige &#8211; a mesma coisa dele. S&oacute; que se voc&ecirc; for t&atilde;o parecido quanto ele a ponto de tamb&eacute;m espelhar os seus defeitos, deu merda de novo! Por isso, vai haver aporrinha&ccedil;&atilde;o tanto pelo fato de voc&ecirc; ser diferente quanto por ser &ldquo;igual&rdquo;. Qual &eacute; a sa&iacute;da? Relaxe e goze. Isso mesmo: ria, nem que seja internamente, da enche&ccedil;&atilde;o de saco. Assim, voc&ecirc; n&atilde;o afeta seu humor por algo contra o qual voc&ecirc; n&atilde;o tem como lutar e, quem sabe, tamb&eacute;m pare de encher o saco do outro.&nbsp; Pode ser um bom come&ccedil;o para ele fazer o mesmo com voc&ecirc;. <\/p>\n<p>E que Sartre v&aacute; &agrave; merda com sua teoria que, no fundo, apenas disfar&ccedil;a a tentativa de transferir ao outro a responsabilidade por nossas cagadas. Pois &eacute;, parece que o que Sartre n&atilde;o queria encarar de jeito nenhum &eacute; que o inferno era ele mesmo. E, ao fazer isso, o pior &eacute; que ele acaba por comprovar sua teoria, porque quando a gente n&atilde;o assume a responsabilidade por nossos atos, sempre buscando um culpado externo, nos transformamos sim no inferno do outro. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img width=\"240\" src=\"images\/stories\/inferno2.jpg\" alt=\"inferno2.jpg\" class=\"alignleft\" title=\"inferno2.jpg\" \/>Sartre entrou para a hist&oacute;ria com a frase &ldquo;o inferno s&atilde;o os outros&rdquo;. Acontece que Sartre era um fil&oacute;sofo franc&ecirc;s existencialista, o que lhe conferia uma personalidade naturalmente pessimista &ndash; n&atilde;o sei se pelo fato de ele ser franc&ecirc;s ou existencialista ou pelas duas coisas juntas. Se os outros fossem realmente um inferno, s&oacute; nos restaria a solid&atilde;o eterna&#8230; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"no"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/266"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=266"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1239,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/266\/revisions\/1239"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}