{"id":293,"date":"2008-03-03T05:02:59","date_gmt":"2008-03-03T05:02:59","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-04T22:17:23","modified_gmt":"2010-11-04T22:17:23","slug":"dr-com-seus-fantasmas-1","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=293","title":{"rendered":"DR com seus fantasmas"},"content":{"rendered":"<p>Voltemos no tempo. 11 de outubro de 1995. Recebo uma liga&ccedil;&atilde;o de uma tia. Ela me diz para ir correndo ao hospital, pois o estado de minha m&atilde;e, v&iacute;tima de um c&acirc;ncer devastador, havia se agravado bastante. Saio &agrave;s pressas de uma reuni&atilde;o com um cliente e chego cinco, m&iacute;seros cinco minutos atrasado. Apesar da morte mais do que anunciada, fico puto, mas muito puto com Deus, que n&atilde;o me deu tempo suficiente para que me despedisse dela direito. Fico pensando em todas as palavras que queria dizer e n&atilde;o disse. <\/p>\n<p>Passam-se anos desse epis&oacute;dio at&eacute;, finalmente, entender que o que eu precisava dizer n&atilde;o era exatamente para ela, mas para mim. Era para a m&atilde;e que vivia dentro de mim. Era com ela que eu precisava conversar e me despedir. <\/p>\n<p>Aconteceu algo semelhante com meu pai, que ainda est&aacute; vivo, muito vivo, mas por quem eu carregava muita m&aacute;goa.&nbsp; Durante muitos anos, cultivava um forte rancor por sentir que ele se manteve ausente em um per&iacute;odo importante de minha vida. Por diversas vezes, ensaiei uma conversa s&eacute;ria, que nunca aconteceu. Alguma coisa soava sem sentido e eu n&atilde;o sabia exatamente o qu&ecirc;. At&eacute; que me veio um estalo: eu queria discutir a rela&ccedil;&atilde;o com algu&eacute;m que j&aacute; n&atilde;o existia mais. Certamente, n&atilde;o era com aquele velhinho de 70 anos, espirituoso e extremamente solid&aacute;rio, quase altru&iacute;sta, uma pessoa muito querida por todos que o conheciam. Era com a lembran&ccedil;a de um pai que vivia apenas dentro de mim. Uma imagem, uma percep&ccedil;&atilde;o de pai que se formou durante a adolesc&ecirc;ncia e se transformou em uma esp&eacute;cie de mem&oacute;ria congelada numa c&aacute;psula do tempo. Quando percebi isso, foi como se o c&eacute;u nublado de repente se abrisse. Pude ver meu pai de hoje sem lentes distorcidas e, assim, pude am&aacute;-lo facilmente. Afinal, o ser em que ele se transformou &eacute; admir&aacute;vel em muitos aspectos. <\/p>\n<p>E o que fiz com a despedida de minha m&atilde;e e a imagem do pai ausente? Bati um longo papo com eles, s&oacute; eu e eles, mas dentro de mim. <\/p>\n<p>Discutir a rela&ccedil;&atilde;o com nossos fantasmas &eacute; a &uacute;nica forma de exorciz&aacute;-los e, assim, liber&aacute;-los para partir. Caso contr&aacute;rio, eles ficam l&aacute;, nos atazanando e atrasando a nossa vida, interrompendo o tr&aacute;fego do nosso fluxo de energia. Pare para pensar um pouco sobre isso. Voc&ecirc; ver&aacute;&nbsp; como&nbsp; &eacute; cansativo carregar esses fantasmas nas costas. <\/p>\n<p>N&atilde;o digo que essa DR seja uma tarefa f&aacute;cil. Muito pelo contr&aacute;rio. Ningu&eacute;m nos ensinou a empreender esse di&aacute;logo interior. Tanto &eacute; que, atualmente, tenho tentado, em v&atilde;o, discutir a rela&ccedil;&atilde;o com uma amiga que, a despeito de in&uacute;meras tentativas que tenho feito para conversarmos pessoalmente, me ignora completamente. Ela n&atilde;o devolve meus recados nem responde meus e-mails. Meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; triste, como se sentisse a morte de uma pessoa querida.&nbsp; Na verdade, sei que &eacute; com ele e n&atilde;o com ela que preciso discutir a rela&ccedil;&atilde;o. Resolvendo a quest&atilde;o dentro de mim, poderei am&aacute;-la novamente, mesmo que ela nunca mais volte a falar comigo. Dessa forma, a amizade que j&aacute; se realizou entre n&oacute;s como algo, sem d&uacute;vida, real poder&aacute; existir eternamente como uma boa lembran&ccedil;a ou como a companhia de um fantasminha legal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguma vez voc&ecirc; j&aacute; se sentiu falando sozinho? J&aacute; viveu a experi&ecirc;ncia de ficar com um sapo entalado na garganta porque seu interlocutor simplesmente sumiu? O &uacute;nico rem&eacute;dio para esse tipo de situa&ccedil;&atilde;o &eacute; reunir os seus fantasmas e levar um papo s&eacute;rio com eles, uma conversa de pai pra filho. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"no"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/293"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=293"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1203,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/293\/revisions\/1203"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}