{"id":2936,"date":"2016-11-06T16:46:08","date_gmt":"2016-11-06T19:46:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2936"},"modified":"2016-11-06T16:46:08","modified_gmt":"2016-11-06T19:46:08","slug":"cartas-inventadas-para-clarice-ta-dificil-ta-dificil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2936","title":{"rendered":"Cartas inventadas para Clarice \u2013 T\u00e1 dif\u00edcil, t\u00e1 dif\u00edcil&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?attachment_id=2937\" rel=\"attachment wp-att-2937\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/conflito-300x169.jpg\" alt=\"conflito\" width=\"300\" height=\"169\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2937\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/conflito-300x169.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/conflito.jpg 564w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ol\u00e1, Clarice. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o te escrevo, hein? N\u00e3o por falta de assunto, nem tempo. \u00c9 que \u00e0s vezes me desanimo e me paraliso diante da ignor\u00e2ncia que me cerca e, como n\u00e3o sou imune, eu que sou feito de carne, ossos e emo\u00e7\u00f5es, mergulho igualmente na ignor\u00e2ncia e, atolado, cego e sem ar, perco a esperan\u00e7a em buscar coer\u00eancia em tanta iniquidade. Sim, iniquidade. Sei que a palavra \u00e9 grave, mas \u00e9 das palavras graves que preciso quando a indigna\u00e7\u00e3o, mais do que a ignor\u00e2ncia, me arrebata. Talvez voc\u00ea realmente tenha raz\u00e3o quando diz que viver ultrapassa qualquer entendimento, mas de que vale a vida sem refletir sobre o viver?<\/p>\n<p>Minha indigna\u00e7\u00e3o vem da observa\u00e7\u00e3o de que vivemos um momento no planeta, em nosso pa\u00eds, em nossos lares de uma dualidade extrema. Enquanto as m\u00e1quinas aprendem a solucionar problemas cada vez mais complexos, n\u00f3s estamos retrocedendo ao racioc\u00ednio bin\u00e1rio do certo ou errado, bem ou mal, verdadeiro ou falso. E como isso me d\u00e1 pregui\u00e7a, Clarice! A cada dia, tenho mais pregui\u00e7a em conversar com esses rob\u00f4s primitivos, previs\u00edveis aut\u00f4matos que se autonomearam os ju\u00edzes da verdade. Diante deles, ou me isolo de vez ou me jogo no baile de m\u00e1scaras. E voc\u00ea sabe como gosto de me relacionar com as pessoas&#8230; S\u00f3 que a hipocrisia tamb\u00e9m tem seu pre\u00e7o. Estamos na merda em que estamos justamente por causa desse maldito homem cordial. Criticamos duramente os estudantes que ocupam escolas p\u00fablicas em protesto \u00e0 merda de educa\u00e7\u00e3o que recebem, por\u00e9m nenhum de nossos filhos estudam em escolas p\u00fablicas. Malhamos os pol\u00edticos corruptos, mas n\u00e3o deixamos de cometer pequenos delitos um dia sequer de nossas vidas. Somos contra toda forma de preconceito, mas fazemos vistas grossas \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do uso do elevador social para pessoas que trabalham em nossas casas. Ali\u00e1s, j\u00e1 imaginou se algum maluco que assumisse a presid\u00eancia desse pa\u00eds acabasse com as favelas? Onde ir\u00edamos arrumar m\u00e3o de obra barata para limpar nossas privadas? Eis os riscos de me fazer de homem cordial, Clarice: a ironia afiada que voc\u00ea conhece t\u00e3o bem. E que, inevitavelmente, nos leva \u00e0 solid\u00e3o. As pessoas n\u00e3o gostam de gente como n\u00f3s, Clarice, gente que lhes mancha as vestes di\u00e1fanas de bons mocinhos e boas mocinhas, jogando na cara o excremento f\u00e9tido empurrado para baixo do tapete.<\/p>\n<p>Pega mal, me dizem. Olha a sua imagem, alertam. Conselho de amigo&#8230; <\/p>\n<p>Estamos todos no mesmo barco, que afunda no lodo fedorento, mas sob o conv\u00e9s bebericamos margaritas e conversamos sobre amenidades. Ai daquele que interromper esse viver id\u00edlico apontando para a lama podre sob nossos p\u00e9s!<\/p>\n<p>E sabe, Clarice, n\u00e3o \u00e9 muito o que eu pe\u00e7o, o que pe\u00e7o como um primeiro passo na dire\u00e7\u00e3o de um viver e conviver mais em congru\u00eancia com nosso mandato biol\u00f3gico. Falem o que for, mas todas as nossas c\u00e9lulas brigam por se perpetuarem e, mesmo que tenham a vida de uma mosca \u2013 o que j\u00e1 \u00e9 bastante para muitas delas -, \u00e9 isso o que fazem com todas as suas for\u00e7as: lutar por viver! E n\u00e3o aceitar nossa condi\u00e7\u00e3o de seres mutantes \u00e9 lutar contra o viver! O que pe\u00e7o \u00e9 s\u00f3 isso: que aceitem a transitoriedade de nosso viver humano  &#8211; o que ignifica n\u00e3o se apegar estupidamente a verdades transit\u00f3rias, nem brigar por elas ou esmagar o outro por elas. Quantas atrocidades j\u00e1 foram cometidas em nome da verdade? Quantas mortes?<\/p>\n<p>Ser humano significa, Clarice, ser o que se \u00e9, sem autoengano. Ser humano \u00e9 ser esse bicho curioso, que todos n\u00f3s sabemos muito bem como \u00e9, porque todos j\u00e1 fomos crian\u00e7as, j\u00e1 sa\u00edmos por a\u00ed sem plano a descobrir o mundo, j\u00e1 ralamos muito joelho, j\u00e1 soubemos o que \u00e9 aprender com quem se gosta. <\/p>\n<p>Voc\u00ea sempre diz, Clarice, que o que o ser humano mais aspira \u00e9 tornar-se ser humano. Desculpe-me, amiga, mas tenho c\u00e1 minhas d\u00favidas se essa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais uma frase de efeito, dessas que as pessoas postam junto com uma fotinho bonita na tentativa desesperada de acionar a metralhadora de likes, no que j\u00e1 se transformou na obsess\u00e3o de cada dia de construir uma imagem aprov\u00e1vel aos olhos dos outros. <\/p>\n<p>Estou cansado, Clarice, cansado de falar aos ventos&#8230; E voc\u00ea bem sabe que a diferen\u00e7a entre n\u00f3s e eles n\u00e3o \u00e9 que somos mais puros, n\u00e3o somos superiores a ningu\u00e9m. Longe disso, estamos juntos nessa aventura \u00e0s vezes t\u00e3o desventurosa, mergulhados at\u00e9 o pesco\u00e7o na mesma lama p\u00fatrida. Apenas dizemos n\u00e3o ao autoengano. A cada dia, quando acordamos, temos a chance de nos esquecermos na n\u00e9voa das superficialidades artificialmente arquitetadas. E dizemos n\u00e3o. Isso faz uma baita diferen\u00e7a. <\/p>\n<p>Abra\u00e7ar quem nos quer morto \u00e9 suic\u00eddio. Se pelo menos eles tamb\u00e9m fossem mais honestos consigo mesmos, acho que ser\u00edamos bem mais felizes juntos, juntos nas iniquidades que cometemos e na consci\u00eancia dolorosa p\u00f3stuma dos estragos de nossos atos. Mesmo concordando, Clarice, que acordar tem l\u00e1 suas muitas desvantagens, prefiro estar l\u00facido e ser tachado de louco a esquecer-me de quem sou e do que sou feito. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?attachment_id=2937\" rel=\"attachment wp-att-2937\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/conflito-300x169.jpg\" alt=\"conflito\" width=\"300\" height=\"169\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2937\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/conflito-300x169.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/conflito.jpg 564w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ol\u00e1, Clarice. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o te escrevo, hein? N\u00e3o por falta de assunto, nem tempo. \u00c9 que \u00e0s vezes me desanimo e me paraliso diante da ignor\u00e2ncia que me cerca e, como n\u00e3o sou imune, eu que sou feito de carne, ossos e emo\u00e7\u00f5es, mergulho igualmente na ignor\u00e2ncia e, atolado, cego e sem ar, perco a esperan\u00e7a em buscar coer\u00eancia em tanta iniquidade. Sim, iniquidade. Sei que a palavra \u00e9 grave, mas \u00e9 das palavras graves que preciso quando a indigna\u00e7\u00e3o, mais do que a ignor\u00e2ncia, me arrebata. 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