{"id":2972,"date":"2020-08-12T09:08:29","date_gmt":"2020-08-12T12:08:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2972"},"modified":"2020-08-12T09:35:34","modified_gmt":"2020-08-12T12:35:34","slug":"a-vida-nos-e-dada-mas-nao-nos-e-dada-feita","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2972","title":{"rendered":"A vida nos \u00e9 dada, mas n\u00e3o nos \u00e9 dada feita*"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"654\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Vida_logo-1024x654.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2973\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Vida_logo-1024x654.png 1024w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Vida_logo-300x192.png 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Vida_logo-768x490.png 768w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Vida_logo.png 1392w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 muito, muito tempo<\/strong>: meu primeiro dia na escolinha. Tinha algo entre 2 e 3 anos de idade. A lembran\u00e7a deste dia se mistura com minha pr\u00f3pria mem\u00f3ria e as hist\u00f3rias que meus pais me contavam. Eu chorava. Muito. Mas muito. E a cara de preocupa\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e s\u00f3 refor\u00e7ava o sentimento de abandono. Eu nunca mais iria v\u00ea-la. Seria o fim para n\u00f3s e, a partir daquele momento, eu precisaria dar conta de mim sozinho para todo o sempre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quatro anos atr\u00e1s<\/strong>: meu filho mais velho entrou na universidade. Uma universidade em outra cidade. Era um s\u00e1bado quente de ver\u00e3o. Minha esposa e eu o acompanhamos em sua nova moradia: um pequeno quarto num pr\u00e9dio s\u00f3 de estudantes. Ajudamos com o transporte e a acomoda\u00e7\u00e3o dos poucos m\u00f3veis que comporiam o seu novo lar a partir daquele momento. Quando voltamos para nossa casa no campo, h\u00e1 40 minutos de onde ele estava e onde passar\u00edamos o fim de semana antes de voltar para S\u00e3o Paulo, resolvemos entrar na piscina. Era um fim de tarde maravilhoso. Choramos abra\u00e7ados. Em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que h\u00e1 de comum nessas duas situa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro que s\u00e3o momentos de inflex\u00e3o, de ruptura, de uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica na vida. A crian\u00e7a que vai pela primeira vez \u00e0 escola e o casal de adultos que se despede do filho que vai morar sozinho t\u00eam raz\u00e3o: daquele momento em diante tudo seria mesmo diferente. E n\u00f3s, como seres vivos, n\u00e3o gostamos de rupturas. Somos seres evolutivos. Mudan\u00e7as nos assustam, nos levam a um lugar muito antigo em nossa mem\u00f3ria ancestral, onde as mudan\u00e7as eram de fato uma quest\u00e3o de vida ou morte. Ou migr\u00e1vamos ou morr\u00edamos de fome. Ou encontr\u00e1vamos uma caverna para nos esconder ou ser\u00edamos devorados. Tudo isso est\u00e1 l\u00e1, escondido em nossa mem\u00f3ria, pronto para ser disparado assim que algo que nos remeta a esses tempos soe como semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo que, por causa do primeiro, nos iludimos, na medida em que todos sabemos: o primeiro dia de aula n\u00e3o \u00e9 o momento onde somos abandonados pelos pais a nossa pr\u00f3pria sorte ou o filho que vai estudar em outra cidade n\u00e3o desaparecer\u00e1 para sempre de nossas vidas. Isso \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio, n\u00e9? E, mesmo assim, vivemos dentro de n\u00f3s uma dor que denominamos facilmente de morte. Algo morreu naquela crian\u00e7a em seu primeiro dia de aula. Algo morreu nos pais quando o filho foi viver sua vida fora do ninho.<\/p>\n\n\n\n<p>E, definitivamente, n\u00e3o estamos preparados para isso: a morte. Nem para a Morte, nem para as pequenas mortes do cotidiano. O fim de uma rela\u00e7\u00e3o amorosa, a mudan\u00e7a de emprego, a perda de liberdade na pandemia. Qualquer frustra\u00e7\u00e3o pode ser encarada da mesma maneira, como uma morte. N\u00e3o aconteceu de acordo com a expectativa, o plano n\u00e3o deu certo, o sonho n\u00e3o se concretizou? A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma: morte.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando nossa mem\u00f3ria ancestral vem com tudo nessas horas, o que fazemos? &nbsp;Nos entregamos a ela! Porque esse \u00e9 o instinto: reagir imediatamente a algo que nos ameace, reagir sem pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algo a fazer para evitarmos esse mecanismo? A resposta, infelizmente, \u00e9 n\u00e3o. Esse processo de reagir ao que nos amea\u00e7a de modo autom\u00e1tico \u00e9 da nossa natureza, n\u00e3o temos como evit\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 que podemos viver um outro tipo de experi\u00eancia nessas situa\u00e7\u00f5es onde nos sentimos amea\u00e7ados? Nesse caso, a resposta, felizmente, \u00e9 sim. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, fizeram ao Dalai Lama a pergunta que eu sempre quis fazer a ele, que, na grande maioria das vezes, aparece sempre com um semblante tranquilo e sorridente:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea nunca tem raiva?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Raiva? Tenho muita! Mas passa r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que a raiva, o medo, o sofrimento passam r\u00e1pido para algumas pessoas, enquanto que em outras esses sentimentos parecem morar nelas para sempre? Me fa\u00e7o essa pergunta j\u00e1 h\u00e1 muitos anos, pois, como ainda estou vivo, sigo sentindo tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Quando percebo sentimentos que afetam negativamente minha sa\u00fade presos a mim, dominando a minha raz\u00e3o, paralisando o meu viver, me incomodo, \u00e0s vezes, me desespero, culpo deus e o mundo. Por que isso agora? E por que comigo? Sinto-me absolutamente sozinho nesse lugar t\u00e3o ruim. A depress\u00e3o inclusive j\u00e1 me visitou nessas ocasi\u00f5es, tamanho \u00e9 o poder que esses sentimentos exercem sobre mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Exceto quando n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Explico.<\/p>\n\n\n\n<p>O Dalai. Por que ele \u00e9 diferente de mim? Por que ele \u00e9 diferente de voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 deu para perceber, sou uma pessoa que gosta de perguntas. S\u00f3 que aprendi que as melhores respostas n\u00e3o est\u00e3o nos outros ou nos livros. Aprendi observando o Dalai e muitos outros mestres que as respostas est\u00e3o em mim mesmo. Eu objeto de estudo sendo observado por eu pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Transforma-te em quem \u00e9s, diz o mestre. O Dalai \u00e9 diferente porque ele sabe disso e faz da sua vida um permanente objeto de estudo. A servi\u00e7o do que? Da evolu\u00e7\u00e3o. Como budista, ele acredita que estamos aqui todos para evoluir e que a consci\u00eancia sobre o que nos passa a cada instante nos d\u00e1 informa\u00e7\u00e3o para permitirmos que a vida siga o seu fluxo, ou seja, evolua. A evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o prop\u00f3sito biol\u00f3gico de tudo o que \u00e9 vivo. Maturana, o bi\u00f3logo, fala a mesma coisa. Mas prefiro falar como F\u00e1bio, o ser humano. Baseado no estudo de mim mesmo, nas vezes em que me vi arrebatado por um sentimento que me levou a um lugar ruim e como, quando eu consegui parar para respirar e pensar, fui capaz de sair desse lugar do passado \u2013 o medo ancestral da morte \u2013 ou do futuro \u2013 expectativas que nunca se cumprem &#8211; e olhar para a vida que me foi dada de uma maneira nova, como o presente que de fato \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cComo a vida nos \u00e9 dada, mas n\u00e3o nos \u00e9 dada feita\u201d, escreve o fil\u00f3sofo Gilberto Kujawski em seu delicioso livro-ensaio O Sentido da Vida, \u201ctemos que faz\u00ea-la n\u00f3s mesmos\u201d. E a melhor forma de fazer a nossa vida, digo eu mesmo, \u00e9 parando de vez em quando para pensar se o que estamos vivendo \u00e9 o passado, com sua hist\u00f3ria e seus gatilhos ancestrais, o futuro, com seus sonhos e expectativas que nunca se cumprem, ou o momento presente, \u00fanico tempo onde \u00e9 poss\u00edvel estar vivo de verdade, com todos os seus desafios, seus aprendizados, perdas e ganhos, dores e amores.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Cita\u00e7\u00e3o de Gilberto Kujawski, em \u201cO Sentido da Vida\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito, muito tempo: meu primeiro dia na escolinha. Tinha algo entre 2 e 3 anos de idade. A lembran\u00e7a deste dia se mistura com minha pr\u00f3pria mem\u00f3ria e as hist\u00f3rias que meus pais me contavam. Eu chorava. Muito. Mas muito. E a cara de preocupa\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e s\u00f3 refor\u00e7ava o sentimento de abandono. 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