{"id":2979,"date":"2020-08-14T13:41:06","date_gmt":"2020-08-14T16:41:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2979"},"modified":"2020-08-14T13:41:08","modified_gmt":"2020-08-14T16:41:08","slug":"volta-para-casa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2979","title":{"rendered":"Volta para casa"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"758\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-758x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2980\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-758x1024.jpg 758w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-222x300.jpg 222w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-768x1038.jpg 768w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-1136x1536.jpg 1136w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-1515x2048.jpg 1515w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-elina-krima-3317936-scaled.jpg 1894w\" sizes=\"(max-width: 758px) 100vw, 758px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Estou morando no campo desde o in\u00edcio da quarentena. Vinte anos atr\u00e1s constru\u00edmos uma casa que sempre usamos como casa de veraneio e que, de repente, surge <em>ressignificada<\/em> como nossa atual moradia. Em breve, com a volta \u00e0s aulas presenciais, meus filhos retornar\u00e3o para suas vidas de estudantes universit\u00e1rios, minha esposa j\u00e1 retomou seu trabalho presencial em S\u00e3o Paulo permanecendo l\u00e1 por alguns dias na semana, mas eu me sinto cada dia mais pertencente a este lugar. N\u00e3o \u00e9 exatamente o lugar, mas o fato de estar longe do barulho e da polui\u00e7\u00e3o, da agita\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica e de todo o pacote que vem com uma grande cidade parece que me ajudou numa reaproxima\u00e7\u00e3o ao que tenho de mais valioso e do qual n\u00e3o posso simplesmente abrir m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho dignifica o Homem. Diz o ditado. O trabalho distrai o Homem. Digo eu. O trabalho nos faz sentirmo-nos ocupados. Na sociedade em que vivemos, esta foi a moeda de troca que inventamos para poder adquirir as coisas que precisamos \u2013 e as que n\u00e3o precisamos tamb\u00e9m \u2013 para viver. Trocamos nosso tempo por dinheiro, reconhecimento e sentido. De todo modo, o trabalho tamb\u00e9m funciona como uma distra\u00e7\u00e3o potente. Obviamente, n\u00e3o s\u00f3 ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas coisas nos distraem. Especialmente, a rua da qual tanto sentimos falta nesta quarentena. A rua t\u00e3o cheia de vida, com seus ru\u00eddos, seus cheiros, suas imagens. Nossos sentidos s\u00e3o incapazes de absorver tudo o que ela nos oferece. Mas s\u00f3 conseguimos perceber isso de verdade quando ela desaparece. \u00c9 na falta da rua que percebemos a rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando vemos a rua da janela de nossas casas, podemos ver mais claramente tudo o que \u00e9 a rua. Tudo o que nos atrai. E o que nos distrai tamb\u00e9m. A mim, quando me afasto da rua, o que mais me atrai na rua \u00e9 a liberdade. A possibilidade de ir para onde quiser, como e quando quiser. Liberdade que \u00e9 um direito, inclusive, garantido em nossa Constitui\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a liberdade de ir e vir momentaneamente suspensa, tamb\u00e9m desaparecem as distra\u00e7\u00f5es que a rua oferece o tempo todo, os infinitos est\u00edmulos que me fazem caminhar sem perceber onde piso ou por quem e por onde passo. Os sentidos sempre voando de um lugar a outro de modo t\u00e3o r\u00e1pido que a maior parte das informa\u00e7\u00f5es que a rua tem a oferecer me escapam. E, mesmo assim, a rua me faz falta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a rua, ainda resta o trabalho, a fam\u00edlia, a casa. Tudo num \u00fanico lugar, o que se transforma num tremendo desafio. Onde come\u00e7a um e termina o outro? E, sem perceber, l\u00e1 estamos n\u00f3s outra vez 100% ocupados com o trabalho, com a fam\u00edlia e com a casa. Distra\u00eddos. Distra\u00eddos do que? De n\u00f3s mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desperdi\u00e7amos a oportunidade que a perda moment\u00e2nea da liberdade de ir e vir nos ofereceu para exercitar a liberdade de ser e estar. De olhar para si mesmo e se perguntar: Quem sou eu? Quem sou eu de verdade? Quem sou eu quando n\u00e3o ando distra\u00eddo por a\u00ed? O que me inspira? O que me causa medo? O que quero? O que n\u00e3o quero?<\/p>\n\n\n\n<p>No \u201cConto da Ilha Desconhecida\u201d, Saramago lembra que \u00e9 necess\u00e1rio sair da ilha para ver a ilha, que n\u00e3o nos vemos se n\u00e3o sa\u00edmos de n\u00f3s. Adoraria que o \u201cnovo normal\u201d a que tantas pessoas se referem fosse esse lugar onde, privados de tantas distra\u00e7\u00f5es, aprend\u00eassemos a olhar para n\u00f3s mesmos, atra\u00eddos pelo que de fato somos quando, isolados socialmente do resto do mundo, estamos a s\u00f3s com o \u00fanico ser que jamais poder\u00edamos deixar de dar aten\u00e7\u00e3o e para a qual inevitavelmente voltaremos quando n\u00e3o existir mais nada para nos distrair<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou morando no campo desde o in\u00edcio da quarentena. Vinte anos atr\u00e1s constru\u00edmos uma casa que sempre usamos como casa de veraneio e que, de repente, surge ressignificada como nossa atual moradia. 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