{"id":2982,"date":"2020-08-15T21:07:14","date_gmt":"2020-08-16T00:07:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2982"},"modified":"2020-08-16T15:10:29","modified_gmt":"2020-08-16T18:10:29","slug":"a-alegria-do-rebanho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=2982","title":{"rendered":"A alegria do rebanho*"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"669\" src=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-trinity-kubassek-288621-1024x669.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2983\" srcset=\"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-trinity-kubassek-288621-1024x669.jpg 1024w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-trinity-kubassek-288621-300x196.jpg 300w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-trinity-kubassek-288621-768x502.jpg 768w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-trinity-kubassek-288621-1536x1003.jpg 1536w, http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-trinity-kubassek-288621-2048x1338.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>De vez em quando, me pego comemorando intimamente a desgra\u00e7a alheia. A do sujeito que posa como a \u00faltima bolacha do pacote ou que destila \u00f3dio em 9 a cada 10 coisas que diz ou que simplesmente descrevo como um oponente a quem quero ver derrotado, prostrado na lona. Dentro de mim, de repente emergem duas palavras repetidas silenciosamente como um mantra: bem feito, bem feito, bem feito. Quem nunca, n\u00e9? Bem feito! Foi merecido!<\/p>\n\n\n\n<p>Seria interessante se algum instituto de pesquisas pudesse mapear o percentual de pessoas que j\u00e1 celebraram alguma vez a desgra\u00e7a de algu\u00e9m, mesmo que \u00e0s escondidas. Aposto que, na hip\u00f3tese de os respondentes serem honestos, chegar\u00edamos bem perto dos 100%. \u00c9 da natureza humana, algu\u00e9m h\u00e1 de dizer. N\u00e3o sou um profundo conhecedor da natureza humana para afirmar tal coisa, mas tenho procurado me conhecer o m\u00e1ximo poss\u00edvel e diria que tal comportamento me parece muito mais cultural do que natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta observar crian\u00e7as pequenas interagindo. Mesmo que, em algumas ocasi\u00f5es, ocorram disputas, especialmente na fase da forma\u00e7\u00e3o do ego, entre dois e quatro anos de idade, nunca vi uma crian\u00e7a celebrando quando outra se machuca ou chora. Pelo contr\u00e1rio, o mais natural \u00e9 que, basta que uma comece a chorar para que se d\u00ea in\u00edcio a uma verdadeira sinfonia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas minha observa\u00e7\u00e3o pode, claro, estar enviesada. Por isso, gosto de me consultar com quem faz desse tipo de observa\u00e7\u00e3o seu of\u00edcio. \u00c9 o caso do bi\u00f3logo chileno Humberto Maturana, um dos maiores pesquisadores da evolu\u00e7\u00e3o humana depois de Darwin e com quem tive o privil\u00e9gio de estudar por alguns anos. Ent\u00e3o, vou me permitir recorrer a um especialista para tentar explicar por que eu, um adulto de meia idade, ou seja, algu\u00e9m que j\u00e1 deveria ter abandonado a fase do egocentrismo h\u00e1 uns 50 anos, ainda vibra por dentro com a desgra\u00e7a alheia.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de mais nada, \u00e9 importante entender que a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno natural. Tanto \u00e9 que se dois animais se encontram diante de um alimento e apenas um deles o come, isso n\u00e3o \u00e9 competi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, porque n\u00e3o \u00e9 essencial, para o que acontece com o que come, que o outro n\u00e3o coma. Nesse aspecto, Maturana brinca que a leoa n\u00e3o compete com a gazela. Est\u00e1 apenas atr\u00e1s de uma boa refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A competi\u00e7\u00e3o igualmente n\u00e3o \u00e9 parte da natureza humana. Pelo contr\u00e1rio, o que torna poss\u00edvel o surgimento do ser humano \u00e9 o amor. Quando Maturana fala do amor, n\u00e3o est\u00e1 falando do amor rom\u00e2ntico, usualmente baseado em proje\u00e7\u00f5es e expectativas de lado a lado, mas da emo\u00e7\u00e3o que constitui o dom\u00ednio de condutas em que se d\u00e1 a operacionalidade da aceita\u00e7\u00e3o do outro como leg\u00edtimo outro na conviv\u00eancia. Criando um espa\u00e7o de intera\u00e7\u00f5es recorrentes, no qual se abre um espa\u00e7o de conviv\u00eancia, o amor permite a constitui\u00e7\u00e3o da linguagem, que, basicamente, \u00e9 o que funda o humano. Sem amor, n\u00e3o existiria a linguagem. Sem linguagem, n\u00e3o existiria o&nbsp; humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, ao inv\u00e9s do amor, o que se manifestasse fosse a competi\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o estaria aqui para contar essa hist\u00f3ria, nem voc\u00ea para l\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece complicado, mas mais uma vez deixemos os estudiosos de lado um pouco para voltarmos a n\u00f3s observadores de nosso pr\u00f3prio viver. Um beb\u00ea s\u00f3 \u00e9 capaz de apreender a linguagem e, portanto, se desenvolver como um ser humano saud\u00e1vel na exist\u00eancia de um espa\u00e7o onde as intera\u00e7\u00f5es aconte\u00e7am a partir de uma emo\u00e7\u00e3o que permita que ele possa ser aceito e respeitado na conviv\u00eancia com os que o cercam, especialmente, sua m\u00e3e e demais cuidadores. E que emo\u00e7\u00e3o \u00e9 esta? O amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso quer dizer que a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos \u00e9 dada, mas ensinada. Aprendemos a competir para nos adequar a uma cultura que evoluiu em torno da ideia de que para eu sobreviver, \u00e9 essencial que o outro morra. Isso come\u00e7ou num passado remoto, para citar Yuval Harari, outro biol\u00f3go que nos presenteou com a obra fundamental para o entendimento de nossa esp\u00e9cie, o livro Homo Sapiens. Segundo Harari, a competi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou quando de ca\u00e7adores e coletores, nos transformamos em pastores e agricultores, colocando uma cerca entre os que t\u00eam direito a se alimentar e os que n\u00e3o t\u00eam. \u00c0 \u00e9poca, este foi um salto evolutivo fundamental, uma resposta inteligente \u00e0 enorme dificuldade de encontrar alimento e \u00e0 necessidade de fixarmos resid\u00eancia, para procriarmos e nos defendermos de inimigos naturais com maior efic\u00e1cia. O conceito de propriedade privada basicamente permitiu que o ser humano se tornasse a esp\u00e9cie predominante na Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o vivemos mais numa era de escassez de alimentos. Pelo contr\u00e1rio, sobram alimentos. S\u00f3 que eles n\u00e3o chegam a todas as pessoas. Estima-se que a cada 4 segundos uma pessoa morra de fome no mundo. Isso significa que, enquanto voc\u00ea lia este texto, umas 30 pessoas morreram. De fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Celebrar a desgra\u00e7a alheia \u00e9 parte do mesmo mindset que mata pessoas de fome: uma forma de pensar que nos foi ensinada e que nos fez acreditar que para podermos viver o outro tem que morrer. Primeira constata\u00e7\u00e3o: isso n\u00e3o \u00e9 verdade! Segunda: se isso nos foi ensinado, podemos escolher, a partir da nova consci\u00eancia que temos agora, ensinar a n\u00f3s mesmos e aos outros uma nova li\u00e7\u00e3o: a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz parte da nossa natureza; ela nos foi \u00fatil para enfrentar um per\u00edodo de enorme escassez de alimentos, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais real; n\u00e3o \u00e9 natural que desejemos que o outro se d\u00ea mal; o amor \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o que nos permitiu existirmos como seres humanos e, portanto, \u00e9 ele que pode nos resgatar da jornada perigosa que estamos percorrendo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p><em>* O t\u00edtulo deste artigo foi inspirado numa frase que li do fil\u00f3sofo Artur Schopenhauer que diz o seguinte: \u201cA \u00fanica alegria do rebanho \u00e9 quando o lobo come a ovelha do lado.\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De vez em quando, me pego comemorando intimamente a desgra\u00e7a alheia. 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