{"id":342,"date":"2008-07-03T09:05:14","date_gmt":"2008-07-03T09:05:14","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-04T19:41:17","modified_gmt":"2010-11-04T19:41:17","slug":"ser-homem-ou-mulher","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=342","title":{"rendered":"Ser homem ou mulher"},"content":{"rendered":"<p><b>Escrito por Contardo Calligaris<\/b><\/p>\n<p>NOS ANOS 1960, &quot;descobrimos&quot; que a identidade de cada g&ecirc;nero, masculino, feminino ou outro (h&aacute; outros, sim), era constru&iacute;da e imposta pela cultura em que viv&iacute;amos. Ou seja, nosso sentimento &iacute;ntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: &quot;algu&eacute;m&quot; nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura. <\/p>\n<p>A descoberta encorajou a milit&acirc;ncia igualit&aacute;ria, os pap&eacute;is sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se poss&iacute;vel sentir-se homem e cuidar das crian&ccedil;as ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no ex&eacute;rcito. Isso, sem que ningu&eacute;m se atormentasse com d&uacute;vidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina. <\/p>\n<p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferen&ccedil;a biol&oacute;gica entre os sexos. <\/p>\n<p>Talvez seja por causa das pr&oacute;prias mudan&ccedil;as que mencionei acima: as diferen&ccedil;as culturais entre g&ecirc;neros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais &quot;s&oacute;lidas&quot;. <\/p>\n<p>Mas muitos dir&atilde;o que aconteceu o seguinte: os avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia mostraram que, na constitui&ccedil;&atilde;o das identidades de g&ecirc;nero, horm&ocirc;nios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista voc&ecirc; de renda ou de farda, voc&ecirc; ser&aacute; ou se sentir&aacute; homem ou mulher como mandam a qu&iacute;mica e a f&iacute;sica de seu corpo. <\/p>\n<p>Paradoxalmente, essa posi&ccedil;&atilde;o, que pretende ser materialista, parece apostar na separa&ccedil;&atilde;o de corpo e mente, como se um mundo &quot;real&quot; de genes e horm&ocirc;nios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, c&aacute; entre n&oacute;s, n&atilde;o &eacute; menos real). Acho mais prov&aacute;vel que haja um mundo s&oacute;, em que interagem fen&ocirc;menos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma &uacute;nica realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obriga&ccedil;&otilde;es indument&aacute;rias e comportamentais, genes, xing&otilde;es, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e car&iacute;cias. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, &eacute; bom n&atilde;o esquecer que a primazia atual das explica&ccedil;&otilde;es &quot;anat&ocirc;micas&quot; &eacute;, por sua vez, um fato cultural. Ela &eacute; a evolu&ccedil;&atilde;o esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor id&eacute;ia: a de uma humanidade comum a todos, al&eacute;m das diferen&ccedil;as culturais. Por exemplo, para justificar a exist&ecirc;ncia de direitos humanos universais, nada melhor do que uma defini&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie a partir da biologia comum e n&atilde;o das culturas, que divergem. <\/p>\n<p>Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, &eacute; bom meditar sobre um extraordin&aacute;rio artigo de Dan Bilefsky, no &quot;New York Times&quot; de 25 de junho (em <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/\">www.nytimes.com<\/a>, procurar &quot;Woman as Family Man&quot;). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Alb&acirc;nia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um c&acirc;non rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre fam&iacute;lias, de gera&ccedil;&atilde;o em gera&ccedil;&atilde;o: voc&ecirc;s matam um dos nossos, n&oacute;s mataremos um dos seus -sendo que s&oacute; podem matar e ser mortos os homens das respectivas fam&iacute;lias. &quot;Abril Despeda&ccedil;ado&quot;, de Ismail Kadar&eacute; (Companhia das Letras), d&aacute; uma boa id&eacute;ia do clima local. Quem n&atilde;o leu pode assistir ao filme hom&ocirc;nimo, de Walter Salles, que transp&ocirc;s o romance de Kadar&eacute; para o norte do Brasil no come&ccedil;o do s&eacute;culo 20. <\/p>\n<p>Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando s&oacute; sobravam as mulheres de uma fam&iacute;lia? Pois &eacute;, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da fam&iacute;lia.<br \/>\nBelefsky encontrou e fotografou v&aacute;rias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atr&aacute;s, virgens, renunciaram &agrave; vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda s&atilde;o: no pleno exerc&iacute;cio de seu patriarcado.<br \/>\nO que assombra nessa hist&oacute;ria, ali&aacute;s, n&atilde;o &eacute; s&oacute; a constru&ccedil;&atilde;o cultural do g&ecirc;nero, mas a incr&iacute;vel liberdade que se revelava poss&iacute;vel numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).<br \/>\nQueria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse. <br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<a href=\"mailto:ccalligari@uol.com.br\">ccalligari@uol.com.br<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A anatomia &eacute; o destino? Talvez, mas h&aacute; lugares em que a mulher pode escolher ser homem. <\/p>\n<p><b>Escrito por Contardo Calligaris<\/b><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"no"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/342"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=342"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1123,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/342\/revisions\/1123"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}