{"id":375,"date":"2008-11-25T08:33:19","date_gmt":"2008-11-25T08:33:19","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-03T23:00:44","modified_gmt":"2010-11-03T23:00:44","slug":"mais-adulterios-virtuais-por-contardo-calligaris","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=375","title":{"rendered":"Mais adult\u00e9rios virtuais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Escrito por Contardo Calligaris<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente escrevi sobre o uso da pornografia na internet, ou melhor, apresentei os resultados de uma pesquisa segundo a qual apenas um ter\u00e7o das mulheres parece considerar que o uso da pornografia on-line por seu parceiro constitui uma trai\u00e7\u00e3o. Um pressuposto da pesquisa era que os homens gostariam de pornografia muito mais do que as mulheres.<\/p>\n<p>Recebi numerosos coment\u00e1rios, de dois tipos. Houve leitoras contestando a id\u00e9ia de que a pornografia seja coisa de homem. E houve leitores e leitoras que esperavam que eu me ocupasse propriamente das rela\u00e7\u00f5es adulterinas virtuais via Orkut, MSN etc. (as quais, de fato, despertam o ci\u00fame e o desespero do parceiro exclu\u00eddo ou &#8220;tra\u00eddo&#8221; muito mais cruelmente do que o uso de pornografia on-line).<\/p>\n<p>Concordo com as leitoras que contestam o pressuposto da pesquisa apresentada. Elas lembram que, tudo bem, talvez haja mais homens interessados em pornografia do que mulheres, mas certamente h\u00e1 muitas mulheres que gostam de algum tipo de pornografia.<\/p>\n<p>Nossa cultura, at\u00e9 40 anos atr\u00e1s, preferia pensar que as mulheres n\u00e3o tivessem desejo sexual algum (fantasias sexuais, nem falar): melhor, portanto, desconfiar de pressupostos que parecem confinar &#8220;naturalmente&#8221; as mulheres no mundo dos bons sentimentos da m\u00e3e reprodutora (e eventualmente tolerante com as &#8220;excentricidades&#8221; do marido &#8220;tarado&#8221;). Tanto mais que, na segunda metade do s\u00e9culo 20, os melhores textos da literatura er\u00f3tica foram escritos por mulheres.<\/p>\n<p>Vamos aos leitores que esperavam que eu tratasse das rela\u00e7\u00f5es adulterinas virtuais.<\/p>\n<p>Nota pr\u00e9via. O uso da internet para seduzir um ou uma amante e, entre um encontro e outro, seguir dialogando com ele ou com ela n\u00e3o difere substancialmente do uso de cartas ou telefonemas. Ou seja, os amores e adult\u00e9rios virtuais propriamente ditos s\u00e3o apenas as rela\u00e7\u00f5es que se mant\u00eam sempre na virtualidade, embora possam ser afetivamente muito relevantes para os envolvidos -talvez mais relevantes do que as rela\u00e7\u00f5es reais com o parceiro ou a parceira com quem eles vivem.<\/p>\n<p>Ora, os amores e adult\u00e9rios virtuais, assim definidos, s\u00e3o uma pr\u00e1tica tanto masculina quanto feminina e cada vez mais difusa. Uma leitora, N\u00edcia Adan Bonatti, escreveu (com brilho e bom humor): &#8220;H\u00e1 muitas mulheres que fogem de seu cotidiano massacrante, insosso e afetivamente est\u00e9ril buscando parceiros &#8220;pr\u00edncipes encantados&#8221; em suas andan\u00e7as intern\u00e1uticas. O feij\u00e3o pode queimar na panela, mas as horas gastas na internet ser\u00e3o preservadas como um tesouro inexpugn\u00e1vel (&#8230;) \u00c9 muito f\u00e1cil esquecer que o parceiro de vida j\u00e1 foi o pr\u00edncipe da vez em priscas eras, j\u00e1 foi o desencadeador de taquicardias hom\u00e9ricas antes de transformar-se no nabo de miolo mole que ronca no sof\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Essas mulheres, ela continua, &#8220;vivem loucas aventuras virtuais, realizam desejos rec\u00f4nditos sem pagar pre\u00e7os por suas fantasias; diver- tem-se bastante, e depois lavam as m\u00e3os e recebem os maridos como se o dia tivesse sido mais um da infinita rotina&#8221;.<\/p>\n<p>Concordo: homens e mulheres parecem encontrar na net um instrumento novo e adequado para compensar uma insatisfa\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica com a vida que eles se permitem viver -compensar, digo, n\u00e3o com as quimeras solit\u00e1rias de Madame Bovary, mas numa esp\u00e9cie de &#8220;bovarismo a dois&#8221;, em que o devaneio \u00e9 sustentado e, de fato, realizado pelo di\u00e1logo virtual com algu\u00e9m que pode estar a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia e, por isso mesmo, garante facilmente a perman\u00eancia do encantamento.<\/p>\n<p>Conheci um casal unido, que se gostava e compartilhava com coragem as alegrias e as adversidades da vida. Um dia, cada um deles, o homem e a mulher, descobriu que o outro vivia, pela internet, um amor virtual paralelo.<\/p>\n<p>O ci\u00fame era fora de quest\u00e3o, visto que ambos eram traidores e tra\u00eddos. S\u00f3 cabia uma certa consterna\u00e7\u00e3o: &#8220;O que aconteceu com a rela\u00e7\u00e3o que estamos vivendo, se, para viv\u00ea-la, ambos precisamos imaginar outra?&#8221;.<\/p>\n<p>A leitora que citei termina seu e-mail perguntando: &#8220;O que temos, enfim, feito com nossos sonhos?&#8221;. Pois \u00e9, gra\u00e7as \u00e0 internet, conseguimos separ\u00e1-los bastante radicalmente do mundo real; com isso, eles n\u00e3o nos ajudam a transformar nossa vida. Em compensa\u00e7\u00e3o, devanear se tornou um prazer menos sofrido. Mme. Bovary se desesperava por n\u00e3o ser &#8220;outra&#8221;; n\u00f3s, teclando noites a fio, podemos encontrar algu\u00e9m que nos fa\u00e7a acreditar que somos &#8220;outros&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img width=\"192\" src=\"images\/stories\/bovary.jpg\" alt=\"bovary.jpg\" class=\"alignright\" title=\"bovary.jpg\" \/>Madame Bovary n&atilde;o sonha mais sozinha: tecla noite adentro nas salas de bate-papo da internet&#8230; <\/p>\n<p><b>Escrito por Contardo Calligaris<\/b><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/375"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=375"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/375\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":939,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/375\/revisions\/939"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}