{"id":384,"date":"2008-12-19T13:05:33","date_gmt":"2008-12-19T13:05:33","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-03T22:38:24","modified_gmt":"2010-11-03T22:38:24","slug":"alma-insondavel-por-dulce-critelli","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=384","title":{"rendered":"Alma insond\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><b>Escrito por Dulce Critelli<\/b><\/p>\n<p>A vida &eacute; surpreendente, e a alma, insond&aacute;vel. H&aacute; uns dois meses, num ato imprevisto e impensado, comprei um teclado (um arranjador, na verdade, como o vendedor fez quest&atilde;o de distinguir). Ele tem uma orquestra inteira &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o, vozes humanas, muitos estilos musicais. Sons perfeitos.<\/p>\n<p>Tocar esse instrumento &eacute; muito diferente de tocar o piano que me acompanha desde meus sete anos e que h&aacute; muito est&aacute; calado no seu canto. E n&atilde;o sei bem se &eacute; por essa profus&atilde;o de possibilidades que ele permite, mas o fato &eacute; que tenho me aventurado pelo universo da m&uacute;sica e, especialmente, pelas veredas da composi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tinha 16 anos quando completei o curso do conservat&oacute;rio e o diretor me dizia para me dedicar &agrave; carreira. Mas eu n&atilde;o tinha esse talento, nem o desejo de passar quase todo o meu dia nesse empenho solit&aacute;rio. Queria era conversar com as pessoas, explorar o mundo e, se tivesse que optar por algo que me exigisse longos per&iacute;odos a s&oacute;s comigo mesma, certamente elegeria as palavras.<\/p>\n<p>Foi a escolha que fiz, mas n&atilde;o exatamente como pretendia.<\/p>\n<p>Acabei por estudar filosofia, e as palavras com que me ocupei foram todas limitadas pelas cercas desse saber. Quando iniciei a faculdade de filosofia, pensava que ela seria apenas um meio para outro fim, um recurso para compreender melhor a exist&ecirc;ncia humana e, a&iacute; sim, escrever literatura de fic&ccedil;&atilde;o. Mas gostei muito da filosofia e constru&iacute; com ela minha carreira.<br \/>\nDo fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o, acredito, como S&oacute;crates, que &quot;uma vida sem reflex&atilde;o n&atilde;o vale a pena&quot;. Mas n&atilde;o posso fechar os olhos para o fato de que a filosofia tamb&eacute;m me fez ficar s&eacute;ria demais. Hannah Arendt diz que o humor dos fil&oacute;sofos &eacute; a melancolia, e acho que ela est&aacute; certa, pois o pensamento, na filosofia, segura-se no corrim&atilde;o do m&eacute;todo. Ele pode descobrir nexos e significados ainda n&atilde;o vistos, mas n&atilde;o pode inventar nenhuma nova realidade.<\/p>\n<p>Por mais prazeroso que seja, filosofar &eacute; um prazer seguro, que caminha sobre solos est&aacute;veis. Hegel dizia que o pensamento se debru&ccedil;a sobre os acontecimentos j&aacute; conclu&iacute;dos. O pensamento olha para o que j&aacute; foi. O passado &eacute; o seu lugar. Da&iacute; que, com aquilo que ainda n&atilde;o &eacute;, ele n&atilde;o pode lidar. Este &eacute; o limite da filosofia: ela compreende, mas n&atilde;o cria.<\/p>\n<p>Quando comprei o teclado, minha necessidade antiga de criar voltou &agrave; tona. Ou, talvez, tenha sido a minha alma, que reprimi sem me dar conta, que me empurrou para essa compra.<\/p>\n<p>Tenho andado em ebuli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mem&oacute;rias se destamparam, caminhos se abriram. Tenho entrado em contato com meus mist&eacute;rios, com sonhos esquecidos&#8230; Tenho sido levada a me refazer em minha identidade.<\/p>\n<p>Respiro melhor, sinto-me mais disposta, durmo melhor.<\/p>\n<p>&Eacute; impressionante o que nos ocorre quando fazemos o que a alma quer. E, quando n&atilde;o a ouvimos, ela nos prega pe&ccedil;as.<\/p>\n<p>A vida recome&ccedil;a, acho, sempre inesperadamente. Somos insond&aacute;veis, tanto quanto s&atilde;o insond&aacute;veis os nossos destinos.<\/p>\n<div style=\"padding-top:5px;\"><\/div>\n<p><em>Artigo publicado na revista Equil&iacute;brio, em 27\/11\/08<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 impressionante o que nos ocorre quando fazemos o que a alma quer; e, quando n\u00e3o a ouvimos, ela nos prega pe\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p><b>Escrito por Dulce Critelli<\/b><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=384"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":927,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384\/revisions\/927"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}