{"id":459,"date":"2009-09-30T12:26:02","date_gmt":"2009-09-30T12:26:02","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T18:38:42","modified_gmt":"2010-11-02T18:38:42","slug":"a-terra-se-move-as-cabecas-nem-tanto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=459","title":{"rendered":"A terra se move, as cabe\u00e7as nem tanto"},"content":{"rendered":"<p><b>Escrito por Fernando Gabeira<\/b><\/p>\n<p>Sou aprendiz de desastre. Presente nos grandes que aconteceram no Brasil quando houve tempo e recurso, viajei para estudar o caso do navio Prestige, na Gal\u00edcia. O objetivo \u00e9 o de sempre: ganhar experi\u00eancia e reflexo para administrar a crise e reduzir danos.<\/p>\n<p>Quando visitava Florian\u00f3polis, chegou a not\u00edcia da chegada do furac\u00e3o Catarina. Naquele momento, havia uma discuss\u00e3o sobre o fen\u00f4meno: ciclone ou furac\u00e3o? Sem subestimar o debate cient\u00edfico, posso afirmar que, a partir de certa velocidade do vento, n\u00e3o importa que diabo, mas quais s\u00e3o as provid\u00eancias urgentes a tomar.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos experi\u00eancia com esse tipo de desastre. A sa\u00edda foi entrar na rede e colher a experi\u00eancia da Fl\u00f3rida e do Caribe. Produzimos em poucas horas uma cartilha de medidas emergenciais. O governo as distribuiu com efic\u00e1cia. Mas as medidas no Caribe e EUA s\u00e3o tomadas com uma semana de anteced\u00eancia. T\u00ednhamos pouco mais do que dez horas.<\/p>\n<p>Duas coisas ficaram claras: O litoral sul precisa de mais esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas e n\u00e3o se deu a m\u00ednima import\u00e2ncia para o tema assim que ele saiu do notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>O tsunami que arrasou uma parte do litoral asi\u00e1tico tornou a terra mais redonda, segundo cientistas. Mas teria, realmente, aberto as cabe\u00e7as? Um dos grandes equ\u00edvocos, neste momento, \u00e9 alinhar os grandes desastres naturais, como o terremoto de Lisboa, como se sucedessem num planeta inalterado.<\/p>\n<p>Discuss\u00f5es filos\u00f3ficas emergiram do terremoto de Lisboa. Mas, quando o tsunami varreu a costa, j\u00e1 existia uma grande discuss\u00e3o sobre as cat\u00e1strofes. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, a humanidade reuniu n\u00e3o s\u00f3 os meios para destruir pelas armas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a como tamb\u00e9m para destruir o planeta, atrav\u00e9s de um crescimento desordenado. Sociedade de riscos, na qual a fun\u00e7\u00e3o dos governantes seria administr\u00e1-los seriamente, deduz-se das teorias do su\u00ed\u00e7o Ulrich Beck. J\u00e1 o franc\u00eas Jean-Pierre Dupuy contesta a express\u00e3o &#8220;sociedade de riscos&#8221; ou mesmo as principais refer\u00eancias do famoso princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o. Nessas teses, para ele, nunca se estabelece o papel da redu\u00e7\u00e3o de todas as dimens\u00f5es da vida \u00e0 problem\u00e1tica da produ\u00e7\u00e3o e consumo na g\u00eanese dos perigos modernos.<\/p>\n<p>Dupuy escreveu um livro com um t\u00edtulo sugestivo: &#8220;Por um Catastrofismo Esclarecido&#8221;. Num ponto essencial, ele concorda com os ecologistas: o movimento de salva\u00e7\u00e3o passa pela prioridade da pol\u00edtica sobre o c\u00e1lculo econ\u00f4mico. Para mim, estamos perdendo esse embate. Se depender dele, o mocinho morre no final.<\/p>\n<p>Algumas evid\u00eancias o tsunami refor\u00e7ou. Por exemplo: a seguran\u00e7a ambiental transcende os governos nacionais. Os europeus decidiram construir um esquema de alarme no \u00cdndico. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas um gesto de solidariedade com os pobres. Milhares de europeus estavam nas praias quando o maremoto aconteceu.<\/p>\n<p>No desastre do Prestige, j\u00e1 observava esse conflito. \u00c9 justo a Gal\u00edcia, que n\u00e3o produz petr\u00f3leo, gastar milh\u00f5es de euros com um sistema de seguran\u00e7a em suas costas? Os navios que passam por l\u00e1 s\u00e3o contratados por &#8220;brookers&#8221;, navegam com bandeira de conveni\u00eancia e alimentam autom\u00f3veis alheios.<\/p>\n<p>Do 11 de Setembro para c\u00e1, com cat\u00e1strofes naturais e pol\u00edticas se sucedendo, ser\u00e1 necess\u00e1rio concordar com uma frase atribu\u00edda a Henry Bergson sobre a guerra: quem poderia acreditar que eventualidades t\u00e3o formid\u00e1veis podem fazer sua entrada no real, com tanto desembara\u00e7o?<\/p>\n<p>O princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega \u00e0 raiz do problema.<br \/>Mesmo ele, no entanto, tem dif\u00edcil passagem pelo Brasil. Cr\u00edticas \u00e0s novas tecnologias s\u00e3o rapidamente interpretadas com o esp\u00edrito da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Seus autores s\u00e3o julgados como ludistas, os trabalhadores que destru\u00edam m\u00e1quinas com medo do progresso.<\/p>\n<p>Talvez exista tamb\u00e9m uma certa resist\u00eancia cultural \u00e0 precau\u00e7\u00e3o, como se fosse o gesto de algu\u00e9m que circula de guarda-chuva e teme as correntes de ar. H\u00e1 alguns anos, participei de um debate em que o jornalista Newton Carlos falava das amea\u00e7as de uma poss\u00edvel guerra nuclear. As pessoas ao meu lado riam daquilo, como se se tratasse de outro planeta.<\/p>\n<p>Newton Carlos sempre foi levemente pessimista. Mas aquele era o tema mundial de maior import\u00e2ncia na \u00e9poca. Como \u00e9 hoje o aquecimento global. H\u00e1 uma grande dificuldade em prevenir cat\u00e1strofes. \u00c9 preciso acreditar na sua possibilidade. Mas, se elas n\u00e3o acontecem, nossos esfor\u00e7os de preven\u00e7\u00e3o aparecem retrospectivamente como in\u00fateis.<\/p>\n<p>O tsunami n\u00e3o foi um acidente ecol\u00f3gico, na sua ess\u00eancia, mas a destrui\u00e7\u00e3o de recifes e corais contribuiu para o curso da onda. Qualquer temporal hoje no Haiti, onde todas as \u00e1rvores foram destru\u00eddas, \u00e9 sempre uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>As pessoas que ainda vivem com a cabe\u00e7a na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial poderiam compreender, pelo menos, que n\u00e3o existe mais a natureza em estado puro. Ela foi modificada pela a\u00e7\u00e3o humana. Agora estamos descobrindo as conseq\u00fc\u00eancias de nossa interven\u00e7\u00e3o com o retorno do tr\u00e1gico no mundo moderno.<\/p>\n<p>Descrever o 11 de Setembro e o tsunami como a irrup\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel dentro do poss\u00edvel \u00e9 apenas um lado do problema. O outro \u00e9 reconhecer que aconteceram porque eram poss\u00edveis. Sobreviver com essa contradi\u00e7\u00e3o implica gigantesca mudan\u00e7a mental, da altura da explos\u00e3o do World Trade Center ou da onda que surgiu no mar.<\/p>\n<div style=\"padding-top:10px\"><\/div>\n<p><em>* Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 15\/01\/2005<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"tsunami_samoa\" src=\"images\/stories\/tsunami_samoa.jpg\" width=\"290\" height=\"187\" \/>Sou aprendiz de desastre. Presente nos grandes que aconteceram no Brasil quando houve tempo e recurso, viajei para estudar o caso do navio Prestige, na Gal\u00edcia. O objetivo \u00e9 o de sempre: ganhar experi\u00eancia e reflexo para administrar a crise e reduzir danos.<\/p>\n<p><b>Escrito por Fernando Gabeira<\/b><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/459"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=459"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/459\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":767,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/459\/revisions\/767"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}