{"id":465,"date":"2009-10-15T00:54:51","date_gmt":"2009-10-15T00:54:51","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T18:30:36","modified_gmt":"2010-11-02T18:30:36","slug":"espaco-de-dentro-espaco-de-fora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=465","title":{"rendered":"Espa\u00e7o de dentro, espa\u00e7o de fora"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright\" alt=\"espaco_interior\" src=\"images\/stories\/espaco_interior.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" \/>Todos n\u00f3s nascemos sem a menor distin\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e o resto do mundo. Essa no\u00e7\u00e3o, aprendemos junto com uma palavra m\u00e1gica: meu! Tanto \u00e9 que, entre 1 e 2 anos de idade, as crian\u00e7as vivem uma fase caracterizada por um forte ego\u00edsmo. No fundo, elas s\u00f3 est\u00e3o delimitando o seu espa\u00e7o que, um momento antes, era totalmente indefinido. Mas e agora que somos adultos, por que, em algumas ocasi\u00f5es, ainda experimentamos essa sensa\u00e7\u00e3o de falta de espa\u00e7o em nossas vidas? Quantas vezes voc\u00ea se pega pensando que est\u00e1 sem espa\u00e7o? Ou que se sentiu invadida em seu espa\u00e7o? Isso acontece mais no trabalho ou em casa? Voc\u00ea observa o fen\u00f4meno mais presente nos relacionamentos com colegas ou nos relacionamentos com pessoas mais \u00edntimas? Estas s\u00e3o perguntas que venho me fazendo nos \u00faltimos tempos e que, possivelmente, tamb\u00e9m povoem a mente e o cora\u00e7\u00e3o de muitas das pessoas que me acompanham nesse blog \u2013 pelas trocas que tenho com muitas delas, creio estar abordando uma quest\u00e3o de natureza quase arquet\u00edpica, ou seja, que permeia o inconsciente coletivo. Por isso, espero que essa partilha, feita integralmente na primeira pessoa, tenha algum eco al\u00e9m de meu pr\u00f3prio espa\u00e7o. <\/p>\n<p>At\u00e9 poucos meses atr\u00e1s, eu era s\u00f3cio de uma ag\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o e resolvi partir para uma carreira-solo como consultor. Entre os motivos desta guinada, estava a sensa\u00e7\u00e3o de que faltava espa\u00e7o para eu poder realizar minhas potencialidades profissionais. E, mesmo tendo uma sala s\u00f3 para mim, era isso o que eu sentia: falta de espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje, tenho um enorme horizonte de possibilidades aberto permanentemente em minha janela profissional, mas \u2013 pasme! \u2013 n\u00e3o tenho mais uma sala s\u00f3 para mim. Fui obrigado a dividir meu espa\u00e7o \u2013 um min\u00fasculo escrit\u00f3rio montado em minha casa \u2013 com minha esposa, que aparece de vez em quando para responder e-mails na segunda posi\u00e7\u00e3o de nossa \u201cbaia dom\u00e9stica\u201d e, ocasionalmente, tamb\u00e9m com meus filhos, que atualizam seus perfis nas redes sociais ou jogam algum game.<\/p>\n<p>A primeira tentativa de atender minha necessidade de espa\u00e7o j\u00e1 aconteceu: foi a organiza\u00e7\u00e3o do ambiente, que estava, com tantos freq\u00fcentadores dividindo o mesmo espa\u00e7o, uma tremenda zona! S\u00f3 que isso criou uma esp\u00e9cie de barreira f\u00edsica imagin\u00e1ria, separando o meu espa\u00e7o \u2013 o lado esquerdo do escrit\u00f3rio \u2013 e o espa\u00e7o dos outros \u2013 o lado direito. E quando essa fronteira \u00e9 invadida \u2013 pelos outros! -, \u00e9 como se uma guerra fosse declarada.  Isso aconteceu recentemente. Depois de ficar alguns dias fora de casa acompanhando meu pai no hospital, voltei e encontrei um documento deixado por minha esposa em cima de meu lado da mesa. Imediatamente, fui interpel\u00e1-la sobre as raz\u00f5es pelas quais aquele documento estava naquele espa\u00e7o  e ela, simplesmente, me respondeu que ali era o melhor lugar para ela visualizar um boleto que precisava ser pago nos pr\u00f3ximos dias. Fiquei ainda mais indignado: tanto espa\u00e7o livre na casa e o meu min\u00fasculo espa\u00e7o era o \u00fanico lugar vis\u00edvel para ela! Santa paci\u00eancia, diria a minha av\u00f3!<\/p>\n<p>Uma segunda medida est\u00e1 em curso: encomendamos um notebook para cada um de nossos filhos. Assim, o mais velho poder\u00e1 pesquisar seus trabalhos escolares e atualizar seus posts em seu espa\u00e7o e o mais novo tamb\u00e9m ter\u00e1 seu pr\u00f3prio espa\u00e7o para os games e, aos poucos, se habituar com essa ferramenta t\u00e3o necess\u00e1ria a sua educa\u00e7\u00e3o. Com isso, tirarei dois coelhinhos de meu espa\u00e7o com uma cajadada s\u00f3. E minha esposa&#8230;  bem, depois da bronca que lhe dei, ela parece bem mais atenta. Honestamente, n\u00e3o sei quanto isso ir\u00e1 durar. Sinto, no entanto, que a quest\u00e3o do meu espa\u00e7o n\u00e3o deveria estar t\u00e3o conectada com o \u201cespa\u00e7o que o outro deixa para mim\u201d, pois \u00e9 disso o que estamos falando aqui, n\u00e9? Do espa\u00e7o que os outros deixam ou n\u00e3o deixam a gente ocupar. Se eles me d\u00e3o espa\u00e7o, sou feliz. Se n\u00e3o d\u00e3o, sinto-me invadido, infeliz. Em outras palavras, estabele\u00e7o uma rela\u00e7\u00e3o de total depend\u00eancia do outro.<\/p>\n<p>J\u00e1 me senti assim outras vezes e, embora ainda continue caindo na mesma armadilha, acredito que esse inc\u00f4modo nomeado como falta de espa\u00e7o f\u00edsico \u00e9 apenas um reflexo de algo que est\u00e1 acontecendo dentro de mim.  O que se processa fora de mim \u00e9 s\u00f3 uma esp\u00e9cie de manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel, escancarada do que se processa dentro, onde reside uma dificuldade enorme de, primeiro, reconhecer o espa\u00e7o  que ocupo no mundo, para, a\u00ed, ent\u00e3o, defend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Quando trago essa reflex\u00e3o de fora para dentro, percebo tamb\u00e9m espa\u00e7os internos que, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, se sentem invadidos, ignorados em seu direito de existir. O espa\u00e7o do sil\u00eancio, o espa\u00e7o da concentra\u00e7\u00e3o, espa\u00e7os que se v\u00eaem, repentinamente desrespeitados por um telefone que toca, por uma voz em tom mais alto, por algu\u00e9m que me interrompe sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cApesar de eu ter mudado de carreira, n\u00e3o mudei de mim.\u201d Surpreendi-me outro dia dizendo esta frase para um amigo. O espa\u00e7o que me faltava dentro de mim continua faltando, porque, afinal, n\u00e3o fiz nenhum grande movimento interno para que esse espa\u00e7o pudesse ser ocupado, preservado ou defendido de invasores. <\/p>\n<p>Sabe o que \u00e9 pior? O movimento interno n\u00e3o acontece porque, na realidade, falta clareza do lado para onde ir. Dirijo-me para a espiritualidade ou para a qualidade de vida? Batalho por uma reserva de tempo extra para descansar ou me aprofundar em leituras prazerosas?  Relaxar ou estudar? Meditar ou pensar? Exigir ou relaxar o c\u00e9rebro? Vou me fazendo essas perguntas enquanto tateio no escuro em busca desse espa\u00e7o que me falta e que, estranhamente, n\u00e3o sei como defini-lo e, portanto, como conquist\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a sensa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 que n\u00e3o haver\u00e1 sala grande o suficiente para saciar minha necessidade de espa\u00e7o e que uma simples folha solta levada pelo vento \u00e9 capaz de fazer um estrago danado nesse duelo de for\u00e7as entre o eu e o outro, de equil\u00edbrio t\u00e3o t\u00eanue e delicado.<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright\" alt=\"espaco_interior\" src=\"images\/stories\/espaco_interior.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" \/>Todos n\u00f3s nascemos sem a menor distin\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e o resto do mundo. Essa no\u00e7\u00e3o, aprendemos junto com uma palavra m\u00e1gica: meu! Tanto \u00e9 que, entre 1 e 2 anos de idade, as crian\u00e7as vivem uma fase caracterizada por um forte ego\u00edsmo. No fundo, elas s\u00f3 est\u00e3o delimitando o seu espa\u00e7o que, um momento antes, era totalmente indefinido. Mas e agora que somos adultos, por que, em algumas ocasi\u00f5es, ainda experimentamos essa sensa\u00e7\u00e3o de falta de espa\u00e7o em nossas vidas? Quantas vezes voc\u00ea se pega pensando que est\u00e1 sem espa\u00e7o? Ou que se sentiu invadida em seu espa\u00e7o? Isso acontece mais no trabalho ou em casa? Voc\u00ea observa o fen\u00f4meno mais presente nos relacionamentos com colegas ou nos relacionamentos com pessoas mais \u00edntimas? Estas s\u00e3o perguntas que venho me fazendo nos \u00faltimos tempos e que, possivelmente, tamb\u00e9m povoem a mente e o cora\u00e7\u00e3o de muitas das pessoas que me acompanham nesse blog \u2013 pelas trocas que tenho com muitas delas, creio estar abordando uma quest\u00e3o de natureza quase arquet\u00edpica, ou seja, que permeia o inconsciente coletivo. 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