{"id":468,"date":"2009-11-16T01:08:14","date_gmt":"2009-11-16T01:08:14","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T18:26:24","modified_gmt":"2010-11-02T18:26:24","slug":"anestesia-eu-quero-uma-pra-viver","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=468","title":{"rendered":"Anestesia, eu quero uma pra viver"},"content":{"rendered":"<p>Por onde ando e por onde vou, quem eu sou parece depender de um certo \u201cc\u00f3digo de valida\u00e7\u00e3o social\u201d. Cada grupo tem o seu pr\u00f3prio c\u00f3digo, mas todos aos quais quero pertencer s\u00e3o t\u00e3o cheios de regras que ou me anulo, ou me isolo ou me anestesio.<\/p>\n<p>Vivendo um momento de expans\u00e3o \u2013 da consci\u00eancia, de id\u00e9ias, de oportunidades -, resolvi estudar a fundo o mercado de produtos vegetarianos e org\u00e2nicos. Especificamente, estava de olho em um produto bem espec\u00edfico \u2013 uma soja fermentada com um fungo criada na Indon\u00e9sia e chamada tempeh. Conversei com pessoas adeptas do vegetarianismo, pesquisei e li muitos artigos e acabei assistindo a alguns filmes \u2013 filmes extremamente indigestos. De teorias sobre a correla\u00e7\u00e3o entre o pum dos bovinos e o efeito estufa a orfanato de franguinhos salvos do descarte, nada parecia me abalar. Tratava-se de uma curiosidade meramente cient\u00edfica. At\u00e9 que, de repente, ap\u00f3s uma dessas sess\u00f5es aterrorizantes, cansei de ver tanta maldade cometida contra o mundo animal e tomei uma decis\u00e3o: n\u00e3o como mais carne!<\/p>\n<p>No entanto, resolvi n\u00e3o ser t\u00e3o radical quanto os veganos, que nem cinto de couro usam. Pensei: n\u00e3o sejamos t\u00e3o radicais, afinal, n\u00e3o moro isolado no alto de uma montanha. Na verdade, fazia alus\u00e3o a um amigo de um amigo que acabou atuando como uma esp\u00e9cie de guru vegetariano e que, de fato, morava no alto de uma montanha longe da civiliza\u00e7\u00e3o e que se mostrava um vegano dos mais fervorosos. Eu era um cidad\u00e3o do mundo, metido at\u00e9 o \u00faltimo fio de cabelo nos problemas de uma metr\u00f3pole como S\u00e3o Paulo. Precisava me adaptar ao meio e, assim, decidi excluir os peixes de minha lista de amiguinhos protegidos de meu apetite insano. Na verdade, exclui os peixes e todos os demais seres viventes dos rios e mares \u2013 excetuando as focas, as baleias e as sereias, \u00e9 claro. Em minha nova dieta, eram permitidos, portanto, camar\u00e3o, lagosta, polvo, lula, robalo, atum, algas e at\u00e9 pepinos do mar, caso estes primitivos seres fossem comest\u00edveis.<\/p>\n<p>Vivi nessa esp\u00e9cie de lua-de-mel com o mundo natural por quase tr\u00eas meses. Durante esse tempo, transformei-me num pregador do \u00e9tico e do saud\u00e1vel, usando meu pr\u00f3prio exemplo para mostrar a amigos e familiares o caminho para um mundo melhor. <\/p>\n<p>Comecei essa jornada instantes depois de devorar um churrasco com amigos paulistas na sacada de um hotel em Natal, no Rio Grande do Norte. S\u00f3 que, passada a ressaca da nababesca orgia gastron\u00f4mica, voltei a sentir vontade do sensual jogo das preliminares e do sexo voraz com uma picanha sangrando. No entanto, resisti. Resisti a meus pr\u00f3prios sonhos libidinosos, \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es de meus filhos, aos \u201cperfumados\u201d almo\u00e7os com os amigos, \u00e0 carne no prato do vizinho, que parecia sempre melhor do que meu \u201cbife de soja\u201d. Resisti porque a mem\u00f3ria dos pobres animais sendo judiados ainda estava fresquinha, fresquinha. S\u00f3 que o tempo passa, e a mem\u00f3ria, ah, a mem\u00f3ria&#8230; <\/p>\n<p>Provei escondido uma carninha aqui, fiz um \u201csacrif\u00edcio\u201d por insist\u00eancia de meus filhos e pronto, estabeleci uma nova regra: carne vermelha permitida um dia por semana! Como esse dia acabava calhando com o churrasco do s\u00e1bado, natural foi ampliar o per\u00edodo para todo o fim de semana, pois sempre sobrava um peda\u00e7o de carne que precisava ser devorado no dia seguinte.<\/p>\n<p>Um amigo me enviou um artigo revelador: \u201cFlexotarianos\u201d. Senti-me repentinamente liberto da culpa. Eu era um vegetariano flex\u00edvel, um flexotariano, algu\u00e9m que, de vez em quando, se permite comer a carne morta \u2013 os vegetarianos chamam a todo mundo que come carne de \u201cdevoradores de defuntos\u201d &#8211;  de uma vaquinha ou de um porquinho \u2013 ainda n\u00e3o voltei a comer carne de frango, alegando, para mim mesmo, o excesso de horm\u00f4nios e antibi\u00f3ticos com que os bichinhos s\u00e3o criados.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que estou muito feliz comendo meu churrasco aos fins de semana e nem ouso uma reprise dos filmes que assisti sobre a produ\u00e7\u00e3o industrial de carne animal. Temo que, \u00e0 primeira imagem das atrocidades cometidas contra bichinhos, eu tenha uma reca\u00edda e me pegue chorando enquanto asso uma fraldinha. <\/p>\n<p>Essa minha conturbada rela\u00e7\u00e3o com a carne \u00e9 s\u00f3 um exemplo do que acaba acontecendo em v\u00e1rios outros aspectos de meu viver. Falo de situa\u00e7\u00f5es nas quais tenho claramente consci\u00eancia de que, por algum motivo, estou errado, mas, mesmo assim, permane\u00e7o no erro. Depois de ver o que vi e tendo como base minhas cren\u00e7as e meus valores, n\u00e3o faria mesmo mais sentido continuar comendo carne, mas foi o que acabei fazendo.<\/p>\n<p>Eu desacelero o carro pouco antes de chegar \u00e0 lombada eletr\u00f4nica. Pronto, falei! Fa\u00e7o o mesmo nas estradas, baixando a velocidade do carro quando me aproximo de um radar. Se eu sei que excesso de velocidade aumenta as chances de acidente? \u00c9 claro que sei! Como sempre soube que fumar era uma forma de me envenenar para valer desde o primeiro cigarro que coloquei na boca, o que, no entanto, n\u00e3o me impediu de repetir este gesto milhares e milhares de vezes pelos 13 anos seguintes.<\/p>\n<p>A \u00faltima \u00e9 que agora tamb\u00e9m compro DVDs piratas \u2013 este, sim, um crime pesado, tanto \u00e9 que, antes de come\u00e7ar o filme, costuma aparecer um comercial comparando o ato de comprar um DVD pirata com o de qualquer bandido barra pesada. E isso aparece no pr\u00f3prio DVD pirata, a exemplo daquelas imagens horrorosas estampadas nas embalagens de cigarro. Eu sei que o que estou fazendo \u00e9 crime. Sei que quando como carne, fumo ou compro um DVD pirata, estou agindo, at\u00e9, de forma contr\u00e1ria a meus princ\u00edpios. E, mesmo assim, continuo fazendo.<\/p>\n<p>Procuro n\u00e3o pensar muito nisso, e s\u00f3 pude escrever esse texto em um momento de dor de consci\u00eancia, pois minha \u00faltima dose de anestesia passou e resolvi adiar um pouco mais at\u00e9 ministrar a pr\u00f3xima. <\/p>\n<p>Esque\u00e7am a dor de parto ou a c\u00f3lica renal \u2013 esta \u00faltima, falo como v\u00edtima freq\u00fcente. N\u00e3o h\u00e1 maior dor do que a da pr\u00f3pria consci\u00eancia. E, n\u00e3o bastasse nosso sofrimento, tem sempre algu\u00e9m de fora \u00e0 espreita de um deslize nosso, para&#8230; enfiar o dedo na ferida! Vejo estampado nos olhos de amigos, em letras garrafais: QUE DECEP\u00c7\u00c3O!  <\/p>\n<p>Em meu \u00edntimo, lembro-me do t\u00edtulo de um dos filmes veganos que assisti, enquanto sinto a anestesia salvadora escorrer pelas veias. \u201cA Carne \u00e9 Fraca\u201d. N\u00e3o me lembro mais da hist\u00f3ria, mas, definitivamente, me parece um bom nome para um filme.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright\" alt=\"anestesia\" src=\"images\/stories\/anestesia.jpg\" width=\"300\" height=\"291\" \/>Por onde ando e por onde vou, quem eu sou parece depender de um certo \u201cc\u00f3digo de valida\u00e7\u00e3o social\u201d. 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