{"id":474,"date":"2009-12-14T00:04:55","date_gmt":"2009-12-14T00:04:55","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T16:56:29","modified_gmt":"2010-11-02T16:56:29","slug":"cada-um-tem-a-torre-de-babel-que-merece","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=474","title":{"rendered":"Cada um tem a Torre de Babel que merece"},"content":{"rendered":"<p>Ando preocupado com o que tenho visto e ouvido nas redes sociais das quais participo. Falo mais especificamente de Orkut, Facebook e Twitter, ambientes onde qualquer um pode, facilmente, criar seu pr\u00f3prio mundo. E de fato \u00e9 o que parece ocorrer: Torres de Babel particulares, com pessoas falando para si mesmas, o poder atribu\u00eddo aos mais \u201cpopulares\u201d, aos possuidores do maior \u201crebanho\u201d, do maior n\u00famero de seguidores. Um pequeno quadro de \u201cfamosos\u201d, oriundos do mundo art\u00edstico, das colunas sociais, \u00e9 cultuada como modelo, enquanto a imensa maioria se engalfinha numa luta de guerreiros sem rosto por seus ralos minutinhos de fama.<br \/>\n<br \/>\nSegundo conta o Antigo Testamento, os descendentes de No\u00e9 resolveram construir uma torre na Babil\u00f4nia t\u00e3o alta que os elevaria aos c\u00e9us para, assim, eternizar seus nomes. Tamanha falta de humildade teria desagradado Deus que, para castig\u00e1-los, confundiu-lhes as l\u00ednguas e os espalhou por toda a Terra.<br \/>\n<br \/>\nAcompanhando de perto o dia-a-dia de algumas redes sociais, sinto o renascer do mito da Torre de Babel, s\u00f3 que agora n\u00e3o h\u00e1 sequer consenso sobre o projeto da torre, como teria ocorrido com os descendentes de No\u00e9. A soberba que desagradou Deus elevou-se \u00e0 categoria do narcisismo. Em psicologia e psiquiatria, o narcisismo muito excessivo \u00e9 o que dificulta o individuo a ter uma vida satisfat\u00f3ria, sendo reconhecido como um estado patol\u00f3gico denominado Transtorno de personalidade narcisista. Indiv\u00edduos com o transtorno julgam-se grandiosos e possuem necessidades de admira\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o de outras pessoas em excesso.<br \/>\n<br \/>\nEmbora psiquiatras como Freud acreditassem que um certo n\u00edvel de narcisismo pudesse ser saud\u00e1vel para equilibrar as necessidades de cada pessoa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, seguramente, eles n\u00e3o se referiam ao que acontece quando algu\u00e9m se inscreve em um site de \u201cconquista de followers\u201d ou negocia indica\u00e7\u00f5es com estranhos, para aumentar sua quantidade de seguidores no Twitter, a rede de microblogging que j\u00e1 se tornou uma frebre entre os brasileiros, a exemplo do Orkut.<br \/>\n<br \/>\nSobre essa compuls\u00e3o pela popularidade, uma amiga trouxe um testemunho estarrecedor: <em>\u201cfalei com aqueles que pareciam dizer alguma coisa, porque a maioria estava ali replicando rob\u00f4s em busca de n\u00fameros que pudessem trazer-lhes, quem sabe num futuro pr\u00f3ximo, a popularidade desejada. Sucedeu a esse sentimento uma irrita\u00e7\u00e3o enorme ao perceber uma massa sem rumo e sem saber o que dizer. Falam, sem saber para quem e sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o nem com conte\u00fado nem com o p\u00fablico que os l\u00ea.\u201d<\/em><br \/>\n<br \/>\nRosana Hermann, figura de relativa express\u00e3o na televis\u00e3o, mas de enorme envergadura nas m\u00eddias digitais, d\u00e1 a dimens\u00e3o desse fen\u00f4meno quando escreve que o <em>\u201cTwitter n\u00e3o \u00e9 apenas um ant\u00eddoto contra solid\u00e3o, \u00e9 um poderoso atestado de que voc\u00ea existe.\u201d<\/em><br \/>\n<br \/>\nTudo isso tem me provocado muitos questionamentos, incluindo, sobre meu pr\u00f3prio comportamento como participante ativo das redes sociais que observo.  E aqui cabe um adendo: n\u00e3o quero nem posso fazer qualquer an\u00e1lise sobre esse fen\u00f4meno de maneira objetiva. Pelo contr\u00e1rio, sou tamb\u00e9m parte do problema e, como tal, tamb\u00e9m contribuo com minha parcela de narcisismo. E \u00e9 a partir desse ponto que falo, como um observador de mim mesmo, de algu\u00e9m que ingressou, por exemplo, no Twitter, seis meses atr\u00e1s com a pergunta \u201cpara que serve esse neg\u00f3cio?\u201d e, hoje, se fica um dia sem \u201ctwittar\u201d, sente-se estranhamente incompleto.<br \/>\n<br \/>\nPara poder falar sobre a compuls\u00e3o pela popularidade, apliquei , como um desses cientistas lend\u00e1rios, o veneno em mim mesmo. Criei um outro perfil, alistei-me num desses sites de \u201cconquista de followers\u201d e, durante 24 horas, fiquei acionando o bot\u00e3o m\u00e1gico, at\u00e9 que atingi 1.000 seguidores. Em outras palavras, senti na pr\u00f3pria pele o que \u00e9 viver nesse mundo e, mesmo tendo apenas minha pr\u00f3pria experi\u00eancia para trazer, creio que ela seja suficiente para poder, pelo menos, formular uma pergunta ainda sem resposta: o que est\u00e1 nos faltando na vida real que nos faz hoje t\u00e3o dependentes da vida virtual? Ou: Por que precisamos de tanta gente para nos ouvir se, de fato, n\u00e3o estamos abertos ao di\u00e1logo?<br \/>\n<br \/>\nBuscando a resposta, primeiro, em mim mesmo, percebo que meu mergulho em redes sociais est\u00e1 relacionado ao preenchimento de uma lacuna. Desde que passei a trabalhar sediado em minha casa, em agosto, ambientes como o Twitter, por exemplo, que permitem voc\u00ea construir sua pr\u00f3pria rede de relacionamentos, me d\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o estou sozinho em meu escrit\u00f3rio dom\u00e9stico. A qualquer momento, posso me sentir como parte de um grupo de pessoas que, aparentemente, se conversam, tendo a mim como elo de liga\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<br \/>\nEscrevi \u201caparentemente\u201d de prop\u00f3sito, pois, na verdade, n\u00e3o acredito que elas realmente se conversam. Todas falam, \u00e9 verdade, mas poucas se escutam. A maioria atua, no m\u00e1ximo, como voyeur dos mon\u00f3logos ou di\u00e1logos alheios, como uma plat\u00e9ia ruidosa que finge para si mesma atuar, enquanto, de fato, apenas assiste.<br \/>\n<br \/>\nE escrevi \u201celo de liga\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m propositalmente, porque esta sensa\u00e7\u00e3o de criar seu pr\u00f3prio mundo, manipulando livremente suas redes de relacionamentos, tem o mesmo efeito de qualquer dessas drogas il\u00edcitas: al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o de prazer resultante do poder criativo \u2013 sim, no sentido divino da palavra -, faz com que voc\u00ea acredite que a fantasia \u00e9 t\u00e3o concreta quanto a realidade. Ali\u00e1s, sobre isso, gostaria de citar Humberto Maturana, bi\u00f3logo chileno que vem sendo estudado por muitos te\u00f3ricos da administra\u00e7\u00e3o moderna por suas id\u00e9ias a respeito de como os seres vivos e, em particular, os seres humanos aprendem. Segundo um trabalho que ele vem desenvolvendo h\u00e1, pelo menos, uns 20 anos, nosso c\u00e9rebro \u00e9 incapaz de distinguir entre ilus\u00e3o e realidade no momento em que vivemos uma determinada situa\u00e7\u00e3o. Isso equivale a dizer que uma pessoa que est\u00e1 sozinha em sua casa ou em seu escrit\u00f3rio, no momento em que passa a se corresponder com outras pessoas em uma rede social, tem a sensa\u00e7\u00e3o real de que n\u00e3o est\u00e1 mais s\u00f3.<br \/>\n<br \/>\nE a\u00ed encerro esse post lembrando uma hist\u00f3ria que vivi em 1987. Prestes a me formar no curso de Jornalismo pela PUC de S\u00e3o Paulo, recebi a incumb\u00eancia de meu professor de cobrir um serm\u00e3o do mais popular tele-evangelista do mundo naquela oportunidade, o pastor Jimmy Swaggart. Naquela \u00e9poca, obviamente ainda n\u00e3o havia o Google, mas o nome Swaggart, al\u00e9m da popularidade religiosa, j\u00e1 era ligado a esc\u00e2ndalos sexuais e sonega\u00e7\u00e3o de impostos. E l\u00e1 fui eu ao est\u00e1dio do Morumbi, com a incumb\u00eancia de escrever uma mat\u00e9ria sobre o primeiro serm\u00e3o ao vivo de Jimmy Swaggart no Brasil. O que aconteceu \u00e9 que, apesar de chegar contaminado pelas informa\u00e7\u00f5es negativas que eu havia pesquisado sobre o pastor e j\u00e1 intencionado a escrever uma mat\u00e9ria contr\u00e1ria a ele, ap\u00f3s algumas horas ouvindo seu serm\u00e3o e suas m\u00fasicas, comecei a me identificar com os sentimentos que elas evocavam naquele momento, qual sejam: paz, uni\u00e3o, fraternidade. Me vi, repentinamente, emocionado como as pessoas que estavam a minha volta e, antes que eu estivesse abra\u00e7ado com elas, sai correndo.  Inventei uma desculpa qualquer e n\u00e3o entreguei a mat\u00e9ria ao professor, pois se fosse fiel \u00e0 experi\u00eancia que vivi com o pastor, teria falado maravilhas sobre ele, o que, certamente, iria ferir minha alma de revolucion\u00e1rio. E se escrevesse a mat\u00e9ria a partir das hist\u00f3rias que li sobre o pastor, n\u00e3o teria sido fiel ao fato vivido.<br \/>\n<br \/>\nDilemas comuns como esse, talvez,  estejam no cerne da explica\u00e7\u00e3o desse mundo criado em torno de Torres de Babel erigidas pelos novos narcisistas desse universo que, para o c\u00e9rebro humano, n\u00e3o tem nada de virtual. Vivemos dilemas como problemas, s\u00f3 que a maior parte dos dilemas s\u00e3o paradoxos. Para problemas, existem solu\u00e7\u00f5es.  N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para paradoxos. Tudo o que podemos \u00e9 conviver com eles ou sofrer por causa deles.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img src=\"images\/stories\/torre_de_babel.jpg\" width=\"320\" alt=\"torre_de_babel\" class=\"alignleft\" \/><br \/>\nAndo preocupado com o que tenho visto e ouvido nas redes sociais das quais participo. Falo mais especificamente de Orkut, Facebook e Twitter, ambientes onde qualquer um pode, facilmente, criar seu pr\u00f3prio mundo. E de fato \u00e9 o que parece ocorrer: Torres de Babel particulares, com pessoas falando para si mesmas, o poder atribu\u00eddo aos mais \u201cpopulares\u201d, aos possuidores do maior \u201crebanho\u201d, do maior n\u00famero de seguidores. Um pequeno quadro de \u201cfamosos\u201d, oriundos do mundo art\u00edstico, das colunas sociais, \u00e9 cultuada como modelo, enquanto a imensa maioria se engalfinha numa luta de guerreiros sem rosto por seus ralos minutinhos de fama.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/474"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=474"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":748,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/474\/revisions\/748"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}