{"id":480,"date":"2009-12-28T13:28:14","date_gmt":"2009-12-28T13:28:14","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T16:35:30","modified_gmt":"2010-11-02T16:35:30","slug":"relacoes-de-verdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=480","title":{"rendered":"Rela\u00e7\u00f5es de verdade"},"content":{"rendered":"<p>De tanto participar de redes sociais como FaceBook e Twitter, j\u00e1 acreditei que os mundos online e offline eram a mesma coisa. S\u00f3 que basta a conex\u00e3o \u00e0 Internet apresentar algum tipo de problema e interromper momentaneamente a rela\u00e7\u00e3o com o outro, para eu voltar a acreditar que rela\u00e7\u00f5es de verdade precisam do toque, do olho no olho, de cheiros e outros elementos corp\u00f3reo-sensoriais que o mundo virtual (ainda) n\u00e3o pode prover.<br \/>\n<br \/>\nEstou tirando f\u00e9rias em minha ch\u00e1cara em Ibi\u00fana. Para ter uma id\u00e9ia da precariedade da conex\u00e3o via modem por aqui, chego at\u00e9 a apelar para a conex\u00e3o discada. Quando percebo que estou a ponto de me estressar com essa limita\u00e7\u00e3o, coloco na cabe\u00e7a que estou de f\u00e9rias e que posso viver sem acesso \u00e0 Internet. Mas ainda h\u00e1 meu celular&#8230; Com conex\u00e3o 3G, de vez em quando, ele funciona \u00e0s mil maravilhas, s\u00f3 que escrever num teclado min\u00fasculo, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 para mim. Ou sou absolutamente econ\u00f4mico, o que me incomoda, ou fico com c\u00e3ibras no \u00fanico dedo que consigo usar para digitar, o que me incomoda muito mais.<br \/>\n<br \/>\nNessas horas, jogo a toalha e redireciono minha aten\u00e7\u00e3o para o mundo que acontece fora da rede. Agora, por exemplo, estou em meu escrit\u00f3rio improvisado no mezzanino e posso escutar o chiado uniforme da panela de press\u00e3o. Ontem, fiquei entretido com a algazarra dos sabi\u00e1s, bem-te-vis, p\u00e1ssaros pretos, rolinhas e, at\u00e9, de dois enormes falc\u00f5es que, no final da tarde, voavam baixo, provavelmente, \u00e0 ca\u00e7a de algum pequeno roedor. Ontem tamb\u00e9m salvei o filhote de um morcego que apareceu ao lado da piscina no in\u00edcio da tempestade e aceitei, em seguida, a proposta de meu filho menor e de meu sobrinho para darmos uma volta na \u201cfloresta\u201d \u2013 uma trilha de uns 2 quilometros que fica pr\u00f3ximo de minha casa. Conversamos sobre cobras e aranhas e outros bichos habitantes daquele lugar e brincamos de imaginar onde eles estavam escondidos enquanto caminh\u00e1vamos. Aqui tem um ninho de cobra. Ali h\u00e1 uma teia&#8230; onde \u00e9 que est\u00e1 a aranha? Fora alguns p\u00e1ssaros, o \u00fanico bicho diferente que vimos foi um enorme sapo que cruzou a trilha bem na nossa frente e que os meninos cutucaram com uma varinha.<br \/>\n<br \/>\nSe eu estivesse conectado \u00e0 Internet, poderia conversar com meus amigos ou, at\u00e9 mesmo, com quem eu nem conhe\u00e7o, sobre experi\u00eancias como essas, mas n\u00e3o adianta: a descri\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 capaz de substituir a experi\u00eancia. At\u00e9 mesmo este texto \u00e9 nada perto da experi\u00eancia real. Primeiro, porque a experi\u00eancia j\u00e1 passou, estamos em outro momento, inclusive, o chiado da panela de press\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo \u2013 agora, ela est\u00e1 emitindo aquele aviso sonoro que parece dizer que, se n\u00e3o aliviar a press\u00e3o, vai explodir. Quando escrevo, lembro-me tamb\u00e9m do cheiro da mata misturado ao da terra molhada, da quentura agrad\u00e1vel do sol atingindo minha pele entre as frestas das \u00e1rvores, do toque \u00e1spero de um tronco recoberto por espinhos, de toda a excita\u00e7\u00e3o de meu filho no encontro com o filhote de morcego e, depois, com o sapo.<br \/>\n<br \/>\nPor outro lado, depois que vivi essas experi\u00eancias e voltei para meu canto, fiquei outra vez com saudade de meus mundos virtuais, dos amigos com os quais s\u00f3 me relaciono em 140 toques e me vi, novamente, limitado pelos problemas de conex\u00e3o. N\u00e3o sei se foi o tempo ausente ou a impossibilidade da presen\u00e7a, mesmo que apenas virtual, que me trouxe essa saudade, essa vontade de falar e ouvir nessa outra esfera de minha vida.<br \/>\n<br \/>\nPercebi que meu sumi\u00e7o tamb\u00e9m deixou pessoas com as quais me relacionava com mais freq\u00fc\u00eancia na mesma vontade de falar e ouvir, e \u00e0 saudade acabou seguindo-se uma certa culpa, uma sensa\u00e7\u00e3o de que, ao escolher viver offline, eu traia o outro lado, as rela\u00e7\u00f5es online. Era como se, de repente, eu deixasse de existir. E a\u00ed fui correndo pegar meu celular, para ver o que eu perdi. Segui atentamente o \u201ctimeline\u201d do Twitter de meus amigos e vi que alguns pareciam deprimidos, solit\u00e1rios, escrevendo at\u00e9 a madrugada, mendigando algu\u00e9m que os ouvisse. Li os e-mails acumulados dos \u00faltimos dias, em sua maioria, cart\u00f5es de Natal enviados com a mesma mensagem para todos os destinat\u00e1rios. Prometi a mim mesmo \u2013 e depois acabei publicando essa promessa \u2013 que n\u00e3o iria ler nem responder nenhum desses cart\u00f5es impessoais. S\u00f3 me flexibilizei quando recebi um torpedo escrito realmente para mim e, em outra ocasi\u00e3o, quando uma amiga me pediu para ler o cart\u00e3o que havia me enviado.<br \/>\n<br \/>\nNesses momentos, onde sinto que as rela\u00e7\u00f5es que se processam na Internet parecem tecer um mundo pautado pela solid\u00e3o e pela impessoalidade, os limites tecnol\u00f3gicos deixam de ser importantes. \u00c9 como se eles me convidassem a prosseguir caminhando entre trilhas na floresta e sinfonias de p\u00e1ssaros e, sobretudo, a promover mais encontros de verdade, com direito \u00e0 presen\u00e7a de corpo e alma, com as pessoas que eu amo, sejam elas oriundas de minhas rela\u00e7\u00f5es online ou dos misteriosos mundos offline.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De tanto participar de redes sociais como FaceBook e Twitter, j\u00e1 acreditei que os mundos online e offline eram a mesma coisa. 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