{"id":496,"date":"2010-01-15T19:53:32","date_gmt":"2010-01-15T19:53:32","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T15:45:56","modified_gmt":"2010-11-02T15:45:56","slug":"nos-esquecemos-de-nos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=496","title":{"rendered":"Nos esquecemos de n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Depois de assistir ao comentado \u201cAvatar\u201d e de passar o efeito de deslumbramento causado pela riqueza dos efeitos e cores presentes no filme, sobreveio uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, uma tristeza dif\u00edcil de nomear e que, mais tarde, descobri que estava relacionada \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que estamos a cada dia mais perdidos de n\u00f3s mesmos.<br \/>\n<br \/>\nUm dia ap\u00f3s assistir a \u201cI am because you are\u201d, o document\u00e1rio produzido, escrito e narrado pela cantora Madonna sobre o flagelo da AIDS que se abate sobre 2,5 milh\u00f5es de crian\u00e7as na \u00c1frica, resolvi encarar as quase 3 horas de \u201cAvatar\u201d, a hist\u00f3ria sobre uma civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 Pandora \u2013 que vive em total equil\u00edbrio com a natureza, at\u00e9 que a gan\u00e2ncia do ser humano chega trazendo desarmonia e destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<br \/>\nEsses dois filmes, a princ\u00edpio, diferentes sob praticamente qualquer \u00e2ngulo em que sejam analisados, foram aos poucos se aproximando um do outro como a teia constru\u00edda pela aranha quando estabelece a ponte entre duas \u00e1rvores. Eles est\u00e3o t\u00e3o interligados quanto eu a voc\u00ea. E, em nosso caso particular, n\u00f3s n\u00e3o estamos ligados um ao outro apenas por este texto. Ambos falamos a mesma l\u00edngua, de alguma forma, temos interesses comuns, como, por exemplo, a inten\u00e7\u00e3o de aprendermos mais sobre nossos relacionamentos e, o que nos torna ainda mais pr\u00f3ximos, somos ambos humanos. Vivemos na linguagem e na necessidade de amar e ser amados.<br \/>\n<br \/>\nHabitamos o mesmo planeta, eu, voc\u00ea, James Cameron, Madonna, as crian\u00e7as da \u00c1frica e do Brasil. Dependemos de recursos naturais como \u00e1gua e oxig\u00eanio para sobreviver. Dependemos da fertilidade da terra, da for\u00e7a dos ventos, dos movimentos das mar\u00e9s. Dependemos da capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies vegetais e animais para ter o alimento que mant\u00e9m nosso sistema autopoi\u00e9tico (auto-produ\u00e7\u00e3o) em funcionamento.<br \/>\n<br \/>\nSem isso, n\u00e3o estar\u00edamos vivos. E, no entanto, agimos como se f\u00f4ssemos seres independentes, como se estiv\u00e9ssemos vendo a paisagem da janela de um trem ou como um filme projetado numa tela. Agimos como espectadores e n\u00e3o como atores que, de fato, dividem o mesmo palco.<br \/>\n<br \/>\nAssim, podemos poluir \u00e0 vontade nossos rios, nosso ar e nosso solo. Extra\u00edmos \u00e0 vontade as riquezas naturais, sem nos preocupar de verdade em rep\u00f4-las. Agimos como se nada tiv\u00e9ssemos a ver com o aquecimento global ou com a mis\u00e9ria ao lado, a ponto de comemorarmos quando o \u00edndice de desmatamento diminui na Amaz\u00f4nia. Como assim, \u201cdiminui\u201d? J\u00e1 n\u00e3o se sabe o suficiente sobre os riscos do desmatamento? Como \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, qualquer comemora\u00e7\u00e3o quando se continuam destruindo florestas e crian\u00e7as morrendo de fome logo ali, bem ao lado de nossa confort\u00e1vel casa?<br \/>\n<br \/>\nFingimos que estamos desconectados uns dos outros, cada um levando sua pr\u00f3pria vida, de maneira totalmente aut\u00f4noma. Escolhemos quem \u00e9 necess\u00e1rio para o nosso viver, colocando todos os demais na lista da indiferen\u00e7a.<br \/>\n<br \/>\nNo entanto, quando morremos, somos todos comidos por vermes, nossos restos materiais se misturando igualmente na terra, onde n\u00e3o existe qualquer diferen\u00e7a entre um brasileiro e um africano, entre um judeu e um mu\u00e7ulmano, entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre adultos e crian\u00e7as, entre culpados e inocentes.<br \/>\n<br \/>\nUma palavra agressiva pode estragar o dia de algu\u00e9m, assim como um abra\u00e7o pode provocar uma alegria contagiante. E, mesmo assim, continuamos nos pensando desconectados. Se temos diplomas e poder, ainda temos a pachorra de impor nossa vis\u00e3o da realidade ao outro, como se nossa condi\u00e7\u00e3o nos desse a propriedade da verdade. Nossa condi\u00e7\u00e3o, qualquer que seja ela, \u00e9 transit\u00f3ria \u2013 at\u00e9 pode durar por toda a nossa vida, mas o que \u00e9 esse espa\u00e7o de tempo perto da trajet\u00f3ria do planeta ou do movimento das estrelas?<br \/>\n<br \/>\nComo os cegos de Saramago, nos tornamos cegos em terra de cegos. Perdemos as refer\u00eancias do viver em harmonia com o outro e, portanto, conosco mesmo. Nos esquecemos de nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria como seres vivos de uma mesma casa, de uma mesma fam\u00edlia. Qu\u00e3o longe podemos ir sem honrarmos nossas pr\u00f3prias origens, sem respeitarmos a carne de que somos feitos e o corpo que formamos uns com os outros, numa rede totalmente interligada e cujo fim est\u00e1 t\u00e3o longe de nossos olhos quanto de nosso entendimento?<br \/>\n<br \/>\nMinha esperan\u00e7a e tamb\u00e9m meu alento \u00e9 que, como a Pandora de \u201cAvatar\u201d, a rede planet\u00e1ria tamb\u00e9m ir\u00e1 se reacomodar para continuar existindo. Enquanto isso, espero sinceramente que, todos os dias, mais e mais pessoas acordem desse torpor que as fazem esquecer-se de si mesmas. Quando nos esquecemos de n\u00f3s, cultivamos o medo e a solid\u00e3o e n\u00e3o o amor, essa forma de viver que tanto almejamos e que \u00e9 facilmente experimentada toda vez que nos conectamos verdadeiramente uns com os outros.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"images\/stories\/caixa-de-pandora1.jpg\" width=\"290\" height=\"353\" alt=\"caixa-de-pandora1\" class=\"alignleft\" \/>Depois de assistir ao comentado \u201cAvatar\u201d e de passar o efeito de deslumbramento causado pela riqueza dos efeitos e cores presentes no filme, sobreveio uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, uma tristeza dif\u00edcil de nomear e que, mais tarde, descobri que estava relacionada \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que estamos a cada dia mais perdidos de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/496"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=496"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/496\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":698,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/496\/revisions\/698"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}