{"id":499,"date":"2010-01-31T22:05:36","date_gmt":"2010-01-31T22:05:36","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T15:24:37","modified_gmt":"2010-11-02T15:24:37","slug":"minha-mao-direita","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=499","title":{"rendered":"Minha m\u00e3o direita"},"content":{"rendered":"<p>Uma cirurgia para a retirada de um cisto cinovial do pulso obrigou-me a deixar a m\u00e3o direita de molho por uma semana. Al\u00e9m de receber alguns coment\u00e1rios maliciosos de amigos, para algu\u00e9m acostumado a discutir a rela\u00e7\u00e3o at\u00e9 com o espelho, essa situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acabou rendendo uma reflex\u00e3o sobre o que, de fato, interessa: as rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<br \/>\nForam exatos sete dias com a m\u00e3o direita imobilizada e presa numa tip\u00f3ia. Para um destro, isso \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o e tanto. Para um escritor, ent\u00e3o, \u00e9 um violento atentado. Mas n\u00e3o foi o c\u00e9rebro quem estava sem funcionar, e a m\u00e3o esquerda, sempre t\u00e3o esquecida e relegada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de m\u00e3o in\u00fatil, fez seu papel direitinho. Ela fez bonito, mas nem de longe substituiu \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o a outra m\u00e3o. Tanto \u00e9 que, assim que fui liberado da tip\u00f3ia, comemorei com o seguinte coment\u00e1rio no Twitter: \u201cPela primeira vez nos \u00faltimos 7 dias, estou usando novamente minha m\u00e3o direita. Quanta falta ela me fez!\u201d<br \/>\n<br \/>\nImediatamente, recebi diversos coment\u00e1rios explorando a o significado, digamos, sexual da situa\u00e7\u00e3o. Sem entrar no m\u00e9rito da quest\u00e3o, o que, de fato, eu queria dizer veio no coment\u00e1rio seguinte, que, pelo visto, as pessoas n\u00e3o se interessaram ou tiveram paci\u00eancia de ler: \u201cPor que ser\u00e1 que a gente s\u00f3 sente falta de alguma coisa quando a perdemos?\u201d<br \/>\n<br \/>\nMinha m\u00e3o direita sempre esteve comigo. Desde que nasci, ela nunca me deixou na m\u00e3o &#8211; com o perd\u00e3o pelo trocadilho, e em todos os sentidos, para satisfazer tamb\u00e9m aos maliciosos. Essa performance impec\u00e1vel, no entanto, parece ter passado despercebida, at\u00e9 que, finalmente, ela foi for\u00e7ada a ficar de molho por alguns dias. A m\u00e3o esquerda bem que tentou me fazer esquecer da outra, mas o esfor\u00e7o era in\u00fatil. S\u00f3 havia uma m\u00e3o direita, com caracter\u00edsticas, portanto, \u00fanicas, como, por exemplo, a domin\u00e2ncia. Mesmo se a esquerda tentasse substitu\u00ed-la nessa qualidade, provavelmente, levaria anos at\u00e9 atingir um resultado satisfat\u00f3rio.<br \/>\n<br \/>\n&#8230;<br \/>\n<br \/>\nColoquei os tr\u00eas pontinhos para dizer que dei uma parada no texto para observar com calma minha m\u00e3o direita. Ela ainda est\u00e1 meio roxa e inchada em fun\u00e7\u00e3o do edema da cirurgia, mas j\u00e1 recuperou 100% de seus movimentos. Olho para ela e vejo muito mais do que uma simples m\u00e3o ou um peda\u00e7o de meu corpo. Minha m\u00e3o direita \u00e9 a lembran\u00e7a viva de todas as pessoas que s\u00e3o t\u00e3o essenciais para mim. Algumas delas j\u00e1 se foram, e nenhuma m\u00e3o esquerda, por mais bem intencionada que estivesse, conseguiu super\u00e1-las em sua import\u00e2ncia. Outras ainda est\u00e3o por a\u00ed, junto comigo, sendo, muito mais do que uma m\u00e3o, para usar a express\u00e3o correta, meu bra\u00e7o direito. Mas como minha m\u00e3o direita de verdade, quantas vezes eu disse isso para essas pessoas, que elas s\u00e3o absolutamente imprescind\u00edveis para mim? Ser\u00e1 que precisarei perd\u00ea-las para reconhecer sua import\u00e2ncia?<br \/>\n<br \/>\nUma amiga me confidenciou que est\u00e1 numa rela\u00e7\u00e3o onde j\u00e1 n\u00e3o existe di\u00e1logo h\u00e1 muitos e muitos anos. N\u00e3o sei se seu companheiro \u00e9 do tipo m\u00e3o direita ou se, junto com a morte do di\u00e1logo, tamb\u00e9m se instalou a morte da m\u00e3o. S\u00f3 sei que vejo muitas de minhas rela\u00e7\u00f5es como m\u00e3os direitas perdidas, membros amputados que ainda s\u00e3o sentidos t\u00e3o reais e t\u00e3o presentes. Definitivamente, elas n\u00e3o morreram, nem foram substitu\u00eddas. Por isso, tenho me aproximado dessas m\u00e3os direitas que se desgarraram de mim por minha pr\u00f3pria vontade ou por vontade delas. Isso n\u00e3o mais importa. Importa apenas que n\u00e3o preciso esperar que elas morram para reconhecer o valor que elas tiveram e, em alguns casos, ainda t\u00eam para mim. Basta pegar um telefone, enviar um e-mail  ou, o que seria melhor, arrumar um encontro olho-no-olho, do tipo que a gente pode se dar as m\u00e3os e agradecer de cora\u00e7\u00e3o pelo outro existir.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"images\/stories\/palmreader.jpg\" width=\"300\" height=\"230\" alt=\"palmreader\" class=\"alignright\" \/><br \/>\nUma cirurgia para a retirada de um cisto cinovial do pulso obrigou-me a deixar a m\u00e3o direita de molho por uma semana. Al\u00e9m de receber alguns coment\u00e1rios maliciosos de amigos, para algu\u00e9m acostumado a discutir a rela\u00e7\u00e3o at\u00e9 com o espelho, essa situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acabou rendendo uma reflex\u00e3o sobre o que, de fato, interessa: as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=499"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":679,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499\/revisions\/679"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}