{"id":500,"date":"2010-02-04T00:48:21","date_gmt":"2010-02-04T00:48:21","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T15:18:16","modified_gmt":"2010-11-02T15:18:16","slug":"andando-em-circulos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=500","title":{"rendered":"Andando em c\u00edrculos"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p>Se voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui no texto, \u00e9 porque, de alguma forma, se interessou em conhecer minha experi\u00eancia m\u00edstica, mas, com todo o respeito por quem tem a paci\u00eancia de me ler, vou lhe dar uma segunda chance para sair correndo. \u00c9 que, como costuma dizer meu professor de Biologia Cultural, Humberto Maturana, a descri\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia n\u00e3o substitui a experi\u00eancia. Isso quer dizer que, mesmo que eu me esmere na descri\u00e7\u00e3o dos detalhes de minha experi\u00eancia, voc\u00ea jamais a conhecer\u00e1 de verdade, porque quem a viveu fui eu, n\u00e3o voc\u00ea.<br \/>\n<br \/>\nPor outro lado, o fato de algu\u00e9m, repito, comum ter vivenciado uma experi\u00eancia de ilumina\u00e7\u00e3o pode ser um est\u00edmulo a quem acredita que s\u00f3 mesmo os esp\u00edritos mais elevados conseguem acessar conhecimentos profundos, que s\u00e3o tamb\u00e9m chamados de m\u00edsticos.<br \/>\n<br \/>\nAntes de relatar a experi\u00eancia, no entanto, vamos unificar nossa linguagem. Para facilitar, usarei a defini\u00e7\u00e3o do Wikipedia: \u201cMisticismo \u00e9 a busca da comunh\u00e3o com a identidade, consciente ou consci\u00eancia de uma derradeira realidade, divindade, verdade espiritual, ou Deus atrav\u00e9s da experi\u00eancia direta ou intuitiva.\u201d<br \/>\n<br \/>\nAt\u00e9 aqui, tranq\u00fcilo, n\u00e9? Pois bem, minha \u201cexperi\u00eancia direta\u201d aconteceu num espa\u00e7o sagrado denominado \u201cC\u00edrculo Celta\u201d. E aqui dispenso a Wikipedia para colocar minha pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o. Pelo que aprendi, C\u00edrculo Celta costuma ser um espa\u00e7o formado por quatro c\u00edrculos conc\u00eantricos marcados no solo com pedras, preferencialmente, retiradas do pr\u00f3prio terreno onde ele \u00e9 constru\u00eddo, de maneira a preservar a energia do local, facilitando a conex\u00e3o direta com a M\u00e3e Terra. O c\u00edrculo mais externo representa o material, o segundo c\u00edrculo, o emocional, o terceiro, o racional e, o c\u00edrculo central, o espiritual. Entra-se no C\u00edrculo por uma abertura feita em seu lado Leste \u2013 como todos os c\u00edrculos m\u00edsticos, a entrada est\u00e1 sempre de frente para onde o Sol nasce \u2013 e caminha-se no sentido hor\u00e1rio, percorrendo cada um dos c\u00edrculos em dire\u00e7\u00e3o ao centro e tendo como inten\u00e7\u00e3o fazer uma esp\u00e9cie de lista de desejos.<br \/>\n<br \/>\nAssim l\u00e1 fui eu passando de c\u00edrculo em c\u00edrculo, enquanto relacionava meus desejos materiais, emocionais, racionais, at\u00e9 que cheguei ao c\u00edrculo central. O curioso \u00e9 que, como estava no centro, sobrava um tempo muito menor para dar uma volta completa e pensar no espiritual, em compara\u00e7\u00e3o ao tempo que tive quando caminhei no c\u00edrculo material, o maior dos c\u00edrculos. S\u00f3 que, n\u00e3o sei explicar, o desejo espiritual emergiu t\u00e3o logo dei o primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o ao centro. E junto com o desejo, uma palavra foi soprada em meu ouvido: humildade. O que ser\u00e1 que isso queria dizer? Foi o que me perguntei, enquanto iniciava o caminho inverso, saindo do c\u00edrculo espiritual, passando pelos c\u00edrculos racional e emocional e finalizando no c\u00edrculo material. A resposta veio ao longo desse trajeto e, junto com ela, se deu meu primeiro contato com o mist\u00e9rio, um conhecimento a que eu ainda n\u00e3o havia acessado.<br \/>\n<br \/>\nA palavra humildade transmutou-se em aceita\u00e7\u00e3o e, enquanto eu passava de c\u00edrculo em c\u00edrculo, a aceita\u00e7\u00e3o funcionava como uma esp\u00e9cie de \u201cconversor de desejos\u201d. Percebi que, no caminho de ida ao centro, havia algo comum em minha lista: ela s\u00f3 trazia desejos de algo que eu queria ser, ou seja, eram muito mais exig\u00eancias do que desejos. J\u00e1 no caminho de volta, os desejos se deslocaram do que eu queria ser para o que eu era, migrando, portanto, de um estado futuro para o momento presente.<br \/>\n<br \/>\nO que mais me surpreendeu foi que sempre entendi a humildade como a constata\u00e7\u00e3o de algo pequeno e inferior. Pessoa muito humilde costuma ser sin\u00f4nimo de pessoa ignorante, modesta, pouco evolu\u00edda, enfim, que ainda \u201cprecisa ter\u201d ou conquistar um monte de coisas para ser \u201calgu\u00e9m\u201d. Em outras palavras, humildade tinha muito mais a ver com minha lista de \u201cdesejos-exig\u00eancias\u201d de minha jornada em dire\u00e7\u00e3o ao centro do que minha nova lista de \u201cdesejos-aceita\u00e7\u00e3o\u201d do caminho de volta. E a\u00ed veio o insight: meu encontro com a humildade n\u00e3o me fazia inferior a ningu\u00e9m, me fazia apenas igual a todo o mundo. Reconhecendo-me no mesmo n\u00edvel de qualquer pessoa, eu j\u00e1 n\u00e3o precisava me cobrar de ser \u201cmais\u201d, pois ser mais do que os outros me afastaria dos outros e, assim, n\u00e3o me reconectaria \u00e0 vida. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fazer parte da vida com a consci\u00eancia de que se \u00e9 apenas um pequeno ponto e, ao mesmo ponto, um ponto essencial numa rede de infinitas conex\u00f5es. Um \u00fanico elo fr\u00e1gil em uma corrente basta para que a corrente inteira seja fr\u00e1gil. E reconectar-me \u00e0 vida foi o desejo espiritual que apareceu t\u00e3o logo dei o primeiro passo no c\u00edrculo central.<br \/>\n<br \/>\nN\u00e3o fa\u00e7o a menor id\u00e9ia se algum leitor conseguiu chegar at\u00e9 aqui. Quem chegou tamb\u00e9m ir\u00e1 saber agora que minha experi\u00eancia m\u00edstica n\u00e3o ficou restrita ao C\u00edrculo Celta. Em seguida, caminhei no Labirinto.<br \/>\n<br \/>\n<img class=\"alignright\" alt=\"labirinto1\" width=\"250\" src=\"images\/stories\/labirinto1.jpg\" \/>H\u00e1 algumas linhas de pensamento que definem o labirinto como um conjunto de percursos intrincados criados com a inten\u00e7\u00e3o de desorientar quem os percorre. Nessa categoria, inclui-se o labirinto de Creta, onde vivia o Minotauro, com sua cabe\u00e7a de monstro e seu corpo de homem. Esse labirinto onde as pessoas se perdiam para serem devoradas pelo Minotauro foi constru\u00eddo por um arquiteto chamado D\u00e9dalo, que tamb\u00e9m virou sin\u00f4nimo de labirinto. E tamb\u00e9m existem os Labirintos unidirecionais que, ap\u00f3s algumas voltas, sempre levam ao centro, enquanto os D\u00e9dalos seriam as estruturas que visam confundir com entradas e sa\u00eddas m\u00faltiplas.<br \/>\n<br \/>\nFoi num desses labirintos, que sempre levam ao centro e que foi constru\u00eddo como uma reprodu\u00e7\u00e3o exata do labirinto da famosa Catedral de Chartres, na Fran\u00e7a, que caminhei.<br \/>\n<br \/>\n\u00c9ramos 14 pessoas. Cada um entrava no labirinto com uma diferen\u00e7a de 3 a 4 minutos. Nossa meta era chegar ao centro, onde havia um c\u00e1lice com vinho representando o Graal \u2013 quem se interessar pela lenda do Santo Graal, por favor pesquise no Google, caso contr\u00e1rio, esse texto, que j\u00e1 est\u00e1 longo demais, ficar\u00e1 intermin\u00e1vel. Para n\u00f3s, o centro representava nosso prop\u00f3sito. S\u00f3 para economizar seu tempo, a Wikipedia diz que \u201co encontro do labirinto \u00e9 considerado pelos gn\u00f3sticos como um s\u00edmbolo de inicia\u00e7\u00e3o. Em seu percurso, haveria um centro espiritual oculto, uma dissipa\u00e7\u00e3o de trevas pela luz e o renascimento pessoal.\u201d<br \/>\n<br \/>\nEnfim, conforme caminh\u00e1vamos no labirinto, ora nos aproxim\u00e1vamos do centro, ora nos distanci\u00e1vamos. E como se tratava de um labirinto baixinho, constru\u00eddo com 1.700 bambus cortados numa altura aproximada de 40 cent\u00edmetros, pod\u00edamos nos ver uns aos outros nesse balet de corpos em movimento, se aproximando e se distanciando do centro. E o mais interessante dessa experi\u00eancia \u00e9 que, n\u00e3o importava se voc\u00ea resolvesse caminhar devagar, parar para descansar de vez em quando ou correr. Se seguisse em frente, iria, de qualquer forma, chegar ao centro. Todos n\u00f3s chegar\u00edamos ao centro, independentemente da dist\u00e2ncia que cada um de n\u00f3s parecia estar desse ponto a cada instante de nossa jornada coletiva.<br \/>\n<br \/>\nO fato \u00e9 que, depois de um tempo, j\u00e1 n\u00e3o me importava mais chegar a lugar nenhum. Minha \u00fanica motiva\u00e7\u00e3o \u2013 motiva\u00e7\u00e3o sem qualquer esfor\u00e7o ou exig\u00eancia &#8211; era caminhar e me perceber nesse movimento de muitas almas que, ora estavam a minha frente, ora estavam atr\u00e1s, numa troca cont\u00ednua de posi\u00e7\u00f5es, o que nos colocava exatamente no mesmo patamar, nem maiores nem menores uns dos outros.<br \/>\n<br \/>\nSenti como se fizesse parte de uma harm\u00f4nica constela\u00e7\u00e3o de estrelas, cada uma com sua \u00f3rbita, cada uma com sua luz, estrelas que se encontram, se desencontram e, sobretudo, se reconhecem como parte de uma irmandade maior, algo dif\u00edcil de verter em palavras, pois, afinal, estou falando da vida, e algu\u00e9m iluminado poderia por favor me explicar o que, exatamente, \u00e9 a vida?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"celta\" height=\"303\" width=\"300\" src=\"images\/stories\/celta.jpg\" \/>Caminhando em um C\u00edrculo Celta, tive uma experi\u00eancia m\u00edstica&#8230; Pronto! Basta deparar-se com esta frase para a maioria das pessoas abandonar a leitura de um texto. Quantas pessoas j\u00e1 n\u00e3o relataram suas experi\u00eancias de ilumina\u00e7\u00e3o, revela\u00e7\u00f5es de mist\u00e9rios, encontros com o sagrado? A diferen\u00e7a, no entanto, \u00e9 que a minha n\u00e3o foi a experi\u00eancia de nenhum iniciado em nada, de nenhum guru ou mestre budista \u2013 pelo contr\u00e1rio, sou um sujeito qualquer, uma pessoa comum, assim como voc\u00ea&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/500"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=500"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/500\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":675,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/500\/revisions\/675"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}