{"id":503,"date":"2010-02-21T14:47:07","date_gmt":"2010-02-21T14:47:07","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T14:55:56","modified_gmt":"2010-11-02T14:55:56","slug":"a-culpa-pelo-fim-das-relacoes-e-dos-pressupostos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=503","title":{"rendered":"A culpa pelo fim das rela\u00e7\u00f5es \u00e9 dos pressupostos"},"content":{"rendered":"<p>\nOs casais reclamam da falta de di\u00e1logo, que n\u00e3o s\u00e3o ouvidos uns pelos outros. Como somos seres basicamente relacionais, n\u00e3o ser ouvido pelo outro \u00e9 como se a gente n\u00e3o existisse. E n\u00e3o ouvir o outro tem, portanto, o mesmo efeito, o de n\u00e3o reconhecer a legitimidade do outro, um caminho certo para que qualquer rela\u00e7\u00e3o chegue ao fim.<br \/>\n<br \/>\nQuando discuto com algu\u00e9m, seja com minha mulher, um amigo ou, at\u00e9 mesmo, um desconhecido, normalmente, j\u00e1 n\u00e3o estou mais conseguindo ouvir o que o outro est\u00e1 me dizendo. Enquanto o outro fala, o que escuto \u00e9 minha pr\u00f3pria voz interna, me apontando os \u201cerros\u201d do outro a cada instante.  E quem define o que \u00e9 certo ou errado no que o outro fala \u00e9 um neg\u00f3cio chamado pressuposto.<br \/>\n<br \/>\nPressupostos s\u00e3o teorias ou hip\u00f3teses (suposi\u00e7\u00f5es) que criamos para sustentar nossas opini\u00f5es. Funciona mais ou menos assim: enquanto voc\u00ea fala, eu fa\u00e7o autom\u00e1tica e, na maioria das vezes, inconscientemente o download de meus pressupostos para o tema que voc\u00ea est\u00e1 abordando e, a cada instante, julgo se o que voc\u00ea diz concorda ou n\u00e3o com as minhas cren\u00e7as, que foram criadas antes que voc\u00ea come\u00e7asse a falar \u2013 por isso, chamam pressupostos.<br \/>\n<br \/>\nNem \u00e9 preciso ir muito longe para concordar que pressupostos s\u00e3o o inimigo n\u00famero 1 da criatividade. Eles nos levam a pensar no passado, o lugar morto das id\u00e9ias j\u00e1 testadas. O problema \u00e9 que nenhuma rela\u00e7\u00e3o acontece no passado, a n\u00e3o ser, claro, as lembran\u00e7as. Mas ningu\u00e9m almo\u00e7a com dona lembran\u00e7a ou faz loucuras com ela na cama. Viver de lembran\u00e7as \u00e9, portanto, escolher n\u00e3o viver. Enquanto voc\u00ea lembra o que viveu com fulano, sicrano est\u00e1 de saco cheio de n\u00e3o ser visto nem ouvido ou, pior, de ser comparado a algu\u00e9m que n\u00e3o existe mais, a n\u00e3o ser em suas lembran\u00e7as. E, se voc\u00ea n\u00e3o cair, literalmente, na real, \u00e9 bem capaz de que sicrano tamb\u00e9m possa sair de sua vida para se tornar uma lembran\u00e7a.<br \/>\n<br \/>\nMas nosso assunto s\u00e3o os danos que os pressupostos causam \u00e0s rela\u00e7\u00f5es. E para n\u00e3o correr o risco de ficar no campo das teorias e dos conceitos, resolvi fazer uma pesquisa em minha mem\u00f3ria, habitat natural dos pressupostos, em busca de exemplos concretos par a ilustrar melhor nossa quest\u00e3o e, principalmente, nos ajudar a evitar as armadilhas que colocamos no caminho ao di\u00e1logo e ao entendimento m\u00fatuo. <\/p>\n<p>Quando me fiz a pergunta \u201conde os pressupostos se manifestam?\u201d, as primeiras imagens que surgiram foram.. no tr\u00e2nsito!:<br \/>\n<br \/>\n\u201cSe estou dando r\u00e9, o que estiver atr\u00e1s de mim tamb\u00e9m tem que dar.\u201d<br \/>\nNem me passa pela cabe\u00e7a que pode haver um outro ve\u00edculo atr\u00e1s do carro atr\u00e1s de mim ou que n\u00e3o haja espa\u00e7o para o outro dar r\u00e9 ou, simplesmente, que o outro est\u00e1 distra\u00eddo e n\u00e3o percebeu que estou dando r\u00e9.<br \/>\n<br \/>\n\u201cSe dou seta para virar \u00e0 direita, quem est\u00e1 \u00e0 minha direita tem que me dar passagem.\u201d<br \/>\nUm amigo meu, nascido na Bahia, disse que em Salvador a seta \u00e9 chamada de \u201cfoda-se\u201d. Voc\u00ea aciona e simplesmente vira o carro na dire\u00e7\u00e3o desejada. E o outro? Bem&#8230;. o nome da seta j\u00e1 explica tudo.<br \/>\n<br \/>\n\u201cOs carros t\u00eam que parar para eu atravessar a rua na faixa de pedestres.\u201d<br \/>\nN\u00e3o me conformo com o desrespeito dos motoristas pela faixa de pedestres. Nas viagens que fiz para Estados Unidos e Canad\u00e1, basta algu\u00e9m amea\u00e7ar colocar o p\u00e9 na rua, para que todos os carros parem. \u2013 e isso se d\u00e1, inclusive, fora da faixa de pedestres. Aqui, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio: basta colocar um p\u00e9 na rua para os carros acelerarem como se quisessem nos atropelar.<br \/>\n<br \/>\nO fato \u00e9 que, se esses pressupostos estiverem s\u00f3 na minha cabe\u00e7a, o desastre ser\u00e1 inevit\u00e1vel. Por isso, precisamos aprender a falar sobre nossos pressupostos, traz\u00ea-los \u00e1 tona, primeiro, para n\u00f3s  mesmos tomarmos consci\u00eancia de sua exist\u00eancia e, segundo, para que o outro comece a entender as raz\u00f5es por que agimos dessa ou daquela maneira.<br \/>\n<br \/>\nAgora trago um exemplo na \u00e1rea afetiva. Uma DR que aconteceu comigo. Eu e minha companheira n\u00e3o est\u00e1vamos numa fase muito boa. Pass\u00e1vamos f\u00e9rias fora de S\u00e3o Paul. Cercados de amigos, distribu\u00edamos sorrisos e gentilezas, mas, intimamente, algo entre n\u00f3s n\u00e3o estava funcionando bem. Mal troc\u00e1vamos meia d\u00fazia de palavras ao longo do dia, e \u00e0 noite, bastava chegar \u00e0 cama, para cada um virar para um lado e silenciar.<br \/>\n<br \/>\nN\u00e3o havia, no entanto, nenhum sinal de inimizade, apenas uma estranheza expressa por esse distanciamento. At\u00e9 que iniciamos um dia trocando farpas e seguimos na base da ironia o tempo todo. Alguma coisa havia se modificado, o torpor e a indiferen\u00e7a haviam sido substitu\u00eddos pela impaci\u00eancia e a intoler\u00e2ncia. E a emo\u00e7\u00e3o, antes anestesiada, agora era a raiva.<br \/>\n<br \/>\nA deteriora\u00e7\u00e3o do clima entre n\u00f3s tornou a DR inevit\u00e1vel.  Como gladiadores se preparando para lutar por sua pr\u00f3pria vida, quando sentamos para conversar, primeiro, cada um de n\u00f3s apontou no outro os gestos de impaci\u00eancia ou as atitudes de intoler\u00e2ncia observados ao longo daquele dia. Isso fez os \u00e2nimos esquentarem bastante.  J\u00e1 est\u00e1vamos usando as palavras para nos agredir quando adveio o sil\u00eancio \u2013 aquele tipo de sil\u00eancio que quem j\u00e1 brigou com algu\u00e9m querido sabe muito bem qual \u00e9; um tipo de sil\u00eancio que, n\u00e3o importa quanto tempo resista, parece durar uma eternidade.<br \/>\n<br \/>\nNossa resili\u00eancia, no entanto, fez com que fic\u00e1ssemos ali, um de frente para o outro, ocupando o vazio das palavras com um sem n\u00famero de pensamentos. Um de n\u00f3s, de repente, quebrou o sil\u00eancio com a sugest\u00e3o: e se a gente tentasse falar simplesmente uma coisa, a grande coisa que, neste momento, est\u00e1 nos incomodando demais em nossa rela\u00e7\u00e3o? Foi a deixa para iniciar o di\u00e1logo \u2013 antes, o que houve n\u00e3o foi di\u00e1logo, mas discuss\u00e3o, sendo a discuss\u00e3o aqui empregada como s\u00edmbolo de uma disputa onde um tem que vencer, e di\u00e1logo, a corrente de significados que flui de uma pessoa a outra, sem qualquer inten\u00e7\u00e3o, vis\u00edvel ou velada, de se estabelecer uma disputa, um duelo entre vencedores e vencidos ou entre verdades e mentiras.<br \/>\n<br \/>\nEla trouxe a quest\u00e3o dela. Eu trouxe a minha. Pedimos para que cada um de n\u00f3s esclarecesse sua quest\u00e3o, enriquecesse com detalhes, ilustrasse com exemplos, para que tent\u00e1ssemos entender de onde fal\u00e1vamos o que est\u00e1vamos falando, ou seja, quais eram os pressupostos que ancoravam nossas quest\u00f5es. Percebemos que n\u00e3o havia nada imposs\u00edvel de ser resolvido. Pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 pelo fato de cada um de n\u00f3s verdadeiramente se abrir para ouvir o outro, a solu\u00e7\u00e3o praticamente j\u00e1 havia sido constru\u00edda.<br \/>\n<br \/>\nParece milagre e, dependendo de sua defini\u00e7\u00e3o para milagre, talvez seja mesmo. Quando nos abrimos para ouvir o ponto de vista do outro, validando-o como uma das faces poss\u00edveis da verdade, emitimos uma mensagem clara de que reconhecemos o outro como leg\u00edtimo. Mais do que isso, quando aceitamos o fato de que o que o outro pensa e sente \u00e9 v\u00e1lido para ele, mesmo que n\u00e3o sejamos capazes de ver com os olhos dele, isso tamb\u00e9m pode se tornar v\u00e1lido para n\u00f3s, que inclu\u00edmos um novo olhar para nossa vis\u00e3o de mundo \u2013 vis\u00e3o que, sozinhos, nossos pressupostos limitariam a um reles e min\u00fasculo umbigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"images\/stories\/pressupostos_separacao.jpg\" width=\"267\" height=\"238\" alt=\"pressupostos_separacao\" class=\"alignright\" \/>Os casais reclamam da falta de di\u00e1logo, que n\u00e3o s\u00e3o ouvidos uns pelos outros. Como somos seres basicamente relacionais, n\u00e3o ser ouvido pelo outro \u00e9 como se a gente n\u00e3o existisse. E n\u00e3o ouvir o outro tem, portanto, o mesmo efeito, o de n\u00e3o reconhecer a legitimidade do outro, um caminho certo para que qualquer rela\u00e7\u00e3o chegue ao fim.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/503"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=503"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":665,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions\/665"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}