{"id":509,"date":"2010-03-29T11:39:59","date_gmt":"2010-03-29T11:39:59","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T14:34:22","modified_gmt":"2010-11-02T14:34:22","slug":"saude-mental-por-rubem-alves","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=509","title":{"rendered":"Sa\u00fade Mental"},"content":{"rendered":"<p><b>Escrito por Rubem Alves<\/b><\/p>\n<p>Fui convidado a fazer uma prele\u00e7\u00e3o sobre sa\u00fade mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu tamb\u00e9m pensei. Tanto que aceitei. Mas foi s\u00f3 parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.<br \/>\n<br \/>\nComecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras s\u00e3o alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cec\u00edlia Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado \u00e0 bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: n\u00e3o suportava mais viver com tanta ang\u00fastia. Cec\u00edlia Meireles sofria de uma suave depress\u00e3o cr\u00f4nica. Maiakoviski suicidou-se. Essas eram pessoas l\u00facidas e profundas que continuar\u00e3o a ser p\u00e3o para os vivos muito depois de n\u00f3s termos sido completamente esquecidos. Mas ser\u00e1 que tinham sa\u00fade mental?<\/p>\n<p>Sa\u00fade mental, essa condi\u00e7\u00e3o em que as id\u00e9ias comportam-se bem, sempre iguais, previs\u00edveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que fa\u00e7a algo inesperado; nem \u00e9 preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda n\u00e3o viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.<\/p>\n<p>Pensar \u00e9 uma coisa muito perigosa&#8230; N\u00e3o, sa\u00fade mental elas n\u00e3o tinham. Eram l\u00facidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo \u00e9 controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os prot\u00f3tipos da sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicol\u00f3gicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de pol\u00edtico que tivesse estresse ou depress\u00e3o. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a intera\u00e7\u00e3o de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente equipamento &#8220;duro&#8221;, e a outra denomina-se software, &#8221; equipamento macio&#8221;. O hardware \u00e9 constitu\u00eddo por todas as coisas s\u00f3lidas com que o aparelho \u00e9 feito. O software \u00e9 constitu\u00eddo por entidades &#8221; espirituais&#8221; &#8211; s\u00edmbolos que formam os programas e s\u00e3o gravados nos discos.<\/p>\n<p>N\u00f3s tamb\u00e9m temos um hardware e um software. O hardware s\u00e3o os nervos do c\u00e9rebro, os neur\u00f4nios, tudo aquilo que comp\u00f5e o sistema nervoso. O software \u00e9 constitu\u00eddo por uma s\u00e9rie de programas que ficam gravados na mem\u00f3ria. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na mem\u00f3ria s\u00e3o s\u00edmbolos, entidades lev\u00edssimas, dir-se-ia mesmo &#8220;espirituais&#8221;, sendo que o programa mais importante \u00e9 a linguagem.<\/p>\n<p>Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. N\u00f3s tamb\u00e9m. Quando o nosso hardware fica louco, h\u00e1 que se chamar psiquiatras e neurologistas, que vir\u00e3o com suas po\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e bisturis consertar o que se estragou.<\/p>\n<p>Quando o problema est\u00e1 no software, entretanto, po\u00e7\u00f5es e bisturis n\u00e3o funcionam. N\u00e3o se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software \u00e9 feito de s\u00edmbolos, somente s\u00edmbolos podem entrar dentro dele.<\/p>\n<p>Assim, para se lidar com o software, h\u00e1 que se fazer uso dos s\u00edmbolos. Por isso, quem trata das perturba\u00e7\u00f5es do software humano nunca se vale de recursos f\u00edsicos para tal. Suas ferramentas s\u00e3o palavras, e eles podem ser<br \/>\npoetas, humoristas, palha\u00e7os, escritores, gurus, amigos e at\u00e9 mesmo psic\u00f3logos e psicanalistas.<\/p>\n<p>Acontece, entretanto, que esse computador que \u00e9 o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s coisas que o seu software produz. Pois n\u00e3o \u00e9 isso que acontece conosco?<br \/>\nOuvimos uma m\u00fasica e choramos. Lemos os poemas er\u00f3ticos de Drummond e o corpo fica excitado.<\/p>\n<p>Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acess\u00f3rios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a m\u00fasica que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza \u00e9 t\u00e3o grande que o hardware n\u00e3o a comporta e se arrebenta de emo\u00e7\u00e3o! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princ\u00edpio: a m\u00fasica que saia de seu software era t\u00e3o bonita que seu hardware n\u00e3o suportou.<\/p>\n<p>Dados esses pressupostos te\u00f3ricos, estamos agora em condi\u00e7\u00f5es de oferecer uma receita que garantir\u00e1, \u00e0queles que a seguirem \u00e0 risca, sa\u00fade mental at\u00e9 o fim dos seus dias.<\/p>\n<p>Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza \u00e9 perigosa para o hardware. Cuidado com a m\u00fasica. Brahms e Mahler s\u00e3o especialmente contra-indicados.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s leituras, evite aquelas que fazem pensar. H\u00e1 uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se h\u00e1 livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?<\/p>\n<p>Os jornais t\u00eam o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensar\u00e1 sempre coisas iguais.<\/p>\n<p>E, aos domingos, n\u00e3o se esque\u00e7a do Silvio Santos e do Gugu Liberato.<\/p>\n<p>Seguindo essa receita, voc\u00ea ter\u00e1 uma vida tranq\u00fcila, embora banal. Mas como voc\u00ea cultivou a insensibilidade, voc\u00ea n\u00e3o perceber\u00e1 o qu\u00e3o banal ela \u00e9. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, voc\u00ea se aposentar\u00e1 para, ent\u00e3o, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, voc\u00ea j\u00e1 ter\u00e1 se esquecido de como eles eram. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright\" alt=\"saude_mental\" height=\"237\" width=\"300\" src=\"images\/stories\/saude_mental.jpg\" \/>Fui convidado a fazer uma prele\u00e7\u00e3o sobre sa\u00fade mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu tamb\u00e9m pensei. Tanto que aceitei. Mas foi s\u00f3 parar para  pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.<\/p>\n<p><b>Escrito por Rubem Alves<\/b><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_s2mail":"yes"},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/509"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=509"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/509\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":656,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/509\/revisions\/656"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}