{"id":510,"date":"2010-03-29T17:40:40","date_gmt":"2010-03-29T17:40:40","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T14:32:53","modified_gmt":"2010-11-02T14:32:53","slug":"discutindo-a-relacao-com-nossos-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=510","title":{"rendered":"Discutindo a rela\u00e7\u00e3o com nossos preconceitos"},"content":{"rendered":"<p>\nPresenciei uma cena no aeroporto que me deixou boquiaberto. Duas enormes filas se formaram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 triagem da alf\u00e2ndega na chegada dos v\u00f4os internacionais: uma fila vinha diretamente da imigra\u00e7\u00e3o e outra do Freeshop. De repente, elas se encontravam e, a partir da\u00ed, s\u00f3 se poderia seguir numa \u00fanica fila. Nessa encruzilhada, v\u00e1rias pessoas se hostilizavam, justificando a fila em que estavam como a fila correta. Um homem, aparentemente, de origem chinesa, se indignou com o fato de pessoas vindas da outra fila estarem entrando na sua frente. Uma delas, um brasileiro, resolveu comprar a briga com o estrangeiro e, com dedo em riste, disparou: \u201cShut up! You\u2019re in my country!\u201d<br \/>\n<br \/>\nO que me horrorizou nessa cena foi que, primeiro, n\u00e3o havia fila correta. Como resolvi ficar de fora enquanto a confus\u00e3o n\u00e3o se resolvesse, pude observar que as duas filas que se formaram eram igualmente longas e penosas para quem estivesse se movendo lentamente nelas depois de muitas e muitas horas dentro de um avi\u00e3o. E, segundo, bastou a tens\u00e3o aumentar de n\u00edvel para o preconceito mostrar suas caras \u2013 no caso, o preconceito contra o estrangeiro, esse outro que vem ao nosso pa\u00eds e resolve entrar na fila errada, ou seja, na fila que n\u00e3o \u00e9 a nossa fila.<br \/>\n<br \/>\nComo um viciado em Twitter, tratei logo de tirar uma foto e postar um coment\u00e1rio sobre o ocorrido. Em poucos segundos, Augusto de Franco, um grande especialista em redes sociais, respondeu ao meu coment\u00e1rio dizendo que, \u201cpor essas e outras que o patriotismo \u00e9 um del\u00edrio de raiz belicista.\u201d Essas palavras conduziram minha aten\u00e7\u00e3o a um per\u00edodo imediatamente anterior a esse confronto no aeroporto, quando eu e minha esposa estivemos, pela primeira vez, visitando algumas cidades da Espanha e da Fran\u00e7a.<br \/>\n<br \/>\nAntes da viagem, ouv\u00edamos que os espanh\u00f3is eram um povo mal-educado e de higiene reprov\u00e1vel. N\u00e3o foi isso que encontramos na capital Madrid e na hist\u00f3rica cidade medieval de Toledo. Por onde andamos \u2013 e, como turistas interessados e curiosos, realmente andamos muito -, n\u00e3o encontramos uma sujeira sequer. As ruas sempre limpas e o modern\u00edssimo metr\u00f4 madrilenho absolutamente impec\u00e1vel. As pessoas sempre nos recebiam carinhosamente \u2013 bastava que parec\u00eassemos perdidos, o que n\u00e3o era algo t\u00e3o dif\u00edcil de acontecer, que algu\u00e9m se aproximava oferecendo aux\u00edlio. E na Fran\u00e7a, pa\u00eds que leva a fama de n\u00e3o respeitar muito os turistas, especialmente, os que n\u00e3o falam sua l\u00edngua, n\u00e3o foi diferente. Nosso vocabul\u00e1rio de meia d\u00fazia de palavras em franc\u00eas era suficiente para que falassem vagarosamente e que repetissem o quanto fosse necess\u00e1rio para que nos entend\u00eassemos. E muitos franceses conversaram conosco em espanhol ou em ingl\u00eas. Fomos muito bem tratados nos dois pa\u00edses, ali\u00e1s, como tamb\u00e9m ocorreu na Argentina, quando l\u00e1 estivemos e pudemos comprovar a admira\u00e7\u00e3o que os argentinos t\u00eam por n\u00f3s, contrariamente ao que costumamos dizer \u2013 e tantas vezes repetimos que passamos a acreditar.<br \/>\n<br \/>\nE, quando eles v\u00eam nos visitar, mandamos que eles calem a boca porque este \u00e9 o nosso pa\u00eds? Como escrevi no Twitter, isso me envergonha. Como me envergonha a briga entre os homof\u00f3bicos e os heterof\u00f3bicos no Big Brother. Ou os rumos que tomou a discuss\u00e3o dos royalties do pr\u00e9-sal, colocando cariocas e capixabas contra o resto do pa\u00eds.<br \/>\n<br \/>\nO preconceito nos divide, nos coloca em posi\u00e7\u00f5es opostas, produz a guerra, como escreveu Augusto de Franco. E, enquanto n\u00f3s, brasileiros, continuarmos escondendo de n\u00f3s mesmos nossa raiz separatista, \u00e9 isso o que produziremos: guerra. Basta que a temperatura aumente um pouco para, tomados pela emo\u00e7\u00e3o, deixarmos fluir a raiva oculta \u2013 medo oculto? -, o sentimento de superioridade \u2013 baixa auto-estima? \u2013 e nossa dificuldade em aceitar o que n\u00e3o \u00e9 igual a n\u00f3s, mesmo que seja o diferente o \u00fanico caminho de aprendizagem.<br \/>\n<br \/>\nSeria muito melhor baixarmos nossas m\u00e1scaras e encararmos nossos preconceitos, como, ali\u00e1s, ocorre no processo de evolu\u00e7\u00e3o de qualquer sociedade. S\u00f3 assim poderemos super\u00e1-los, trazendo \u00e0 luz da consci\u00eancia o que est\u00e1 oculto e, como tal, nos domina sem que nos apercebamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"preconceito_estupido\" height=\"400\" width=\"296\" src=\"images\/stories\/preconceito_estupido.jpg\" \/>Presenciei uma cena no aeroporto que me deixou boquiaberto. 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