{"id":519,"date":"2010-04-25T23:46:31","date_gmt":"2010-04-25T23:46:31","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-02T14:17:51","modified_gmt":"2010-11-02T14:17:51","slug":"piracoes-inspiracoes-e-outros-viveres","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=519","title":{"rendered":"Pira\u00e7\u00f5es, inspira\u00e7\u00f5es e outros viveres"},"content":{"rendered":"<p>\nTem gente que acha que pirar e inspirar \u00e9 a mesma coisa. E sai por a\u00ed consumindo qualquer porcaria vendida como milagre, passagem secreta para o para\u00edso, liberdade total instant\u00e2nea ou chave m\u00e1gica das portas da percep\u00e7\u00e3o. Esquece que pirar \u00e9 o mesmo que queimar-se, arder no fogo impiedoso, enquanto inspirar \u00e9, pelo contr\u00e1rio, (re)construir-se continuamente e encher-se de vida.<br \/>\n<br \/>\nInspirar \u00e9 algo que fazemos sem pensar. Ningu\u00e9m fica contando quantas vezes inspiramos. A n\u00e3o ser, claro, os m\u00e9dicos e os aparelhos que eles utilizam para poupar seu pensar.<br \/>\n<br \/>\nInspiramos e pronto: enchemos nossos pulm\u00f5es de oxig\u00eanio misturado a outros gases e part\u00edculas de todo o tipo, suspensas nesse ar que n\u00e3o se v\u00ea a olhos nus  e, mesmo sem o v\u00ea-lo, sab\u00ea-lo misterioso elemento sem o qual j\u00e1 n\u00e3o mais existir\u00edamos.<br \/>\n<br \/>\nInspiramos e fazemos nossos pulm\u00f5es se expandirem como um anjo espregui\u00e7ando-se ao acordar de um sono profundo.  Milh\u00f5es de encontros, conflitos, di\u00e1logos, trocas, uni\u00f5es, separa\u00e7\u00f5es, fus\u00f5es acontecem e se repetem, se repetem, se repetem. No inspirar, trazemos continuamente a vida de fora para dentro, de fora para dentro, de fora para dentro.<br \/>\n<br \/>\nInspirar-se \u00e9 deixar-se invadir pelo que est\u00e1 fora, abrir-se para o novo, entregar-se a caminhos in\u00e9ditos, sem qualquer placa, sem no\u00e7\u00e3o de destino ou dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<br \/>\nS\u00f3 se enche o copo vazio. S\u00f3 se inspira quem, de tempos em tempos, lembra-se de esvaziar seu pote, liberando ideias, cren\u00e7as, conceitos, preconceitos, certezas, antigas dores e medos passados. Pode-se fazer isso num ritual m\u00edstico ou num poema. Mas n\u00e3o se necessita de nenhum dote especial para esvaziar-se. Basta abrir a porta da jaula e deixar novos bichos entrar \u2013 em grupo ou um de cada vez, tanto faz, desde que entrem.<br \/>\n<br \/>\nInspirar-se libera-nos para aprender novas l\u00ednguas, conhecer o mundo e a si mesmo pelo espelho mais perfeito que nos deram: o outro.<br \/>\n<br \/>\nInspirar-se \u00e9 se encher do outro \u2013 outro entendido como a oportunidade nos presenteada de abrir os olhos para o que n\u00e3o se pode ver sozinho. N\u00e3o, n\u00e3o se pode ver com os olhos do outro, mas se pode inundar-se das vis\u00f5es do outro, vividas unicamente por ele e sentidas t\u00e3o diferentemente quanto forem os ouvidos de quem as  ouve. A cada conto, aumenta-se um ponto&#8230;<br \/>\n<br \/>\nQuem prende o ar depois que inspira faz apneia. Tem quem consiga ficar mais de dois minutos debaixo do ar com a respira\u00e7\u00e3o presa&#8230;<br \/>\n<br \/>\nExpirar \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o do resultado da troca entre o ar que entra e nossos pulm\u00f5es e demais \u00f3rg\u00e3os internos. Ela \u00e9 o que sobra dessa alquimia. Quando expiramos, jogamos pra fora aquilo que n\u00e3o mais nos serve, liberando-o para o mundo.<br \/>\n<br \/>\nQuando um pintor inspira-se para colorir uma tela, sua obra \u00e9 o produto que sobra dessa troca. O resto, o imenso resto fica dentro, com ele.<br \/>\n<br \/>\nQuando um escritor inspira-se para preencher laudas imagin\u00e1rias no computador, seu livro \u00e9 o que j\u00e1 n\u00e3o mais lhe pertence, produto do mundo, de autoria crescentemente m\u00faltipla, a cada vez que \u00e9 lido e, a cada leitura, reconstru\u00eddo. Tudo o mais, ao escritor pertence, seu tesouro particular.<br \/>\n<br \/>\nInspiramos e nos expandimos.<br \/>\nExpiramos e nos recolhemos.<br \/>\nE nessa troca e terna mente crescemos.<br \/>\n<br \/>\nNosso viver biol\u00f3gico se ajusta por conta pr\u00f3pria, sempre de olho no bem-estar do sistema vivo. Nem precisamos nos preocupar com ele. Precisamos, sim, nos preocupar quando, \u00e0s vezes, conscientemente, lutamos contra ele, atentamos escancaradamente contra nosso pr\u00f3prio bem-estar.<br \/>\n<br \/>\nPrecisamos nos manter atentos para os momentos em que, deliberadamente, buscamos estar no mal-estar.<br \/>\n<br \/>\nDesequilibramos nosso viver biol\u00f3gico perfeito acreditando que ganhamos algo precioso com essa atitude, pois o sistema nervoso vive como realidade tudo o que vive no momento em que vive, s\u00f3 qualificando-o como engano em algum momento posterior. Ent\u00e3o, invariavelmente, acabamos descobrindo que todo desequil\u00edbrio gera mais desequil\u00edbrio e dor.<br \/>\n<br \/>\nUm ser vivo em desequil\u00edbrio caminha em dire\u00e7\u00e3o ao colapso.<br \/>\n<br \/>\nAos poucos, o ar preso dentro da gente vai se transformando em um outro, diferente daquele que entrou pela inspira\u00e7\u00e3o. De elixir da vida, transforma-se lentamente em veneno. Retido, nos consome, nos canceriza, nos destroi. Cabe\u00e7a cheia de passado \u00e9 cabe\u00e7a velha enrijecendo-se. Rigidez \u00e9 morte. Fluidez \u00e9 vida. Inspirar e expirar. Inspirar-se e expirar-se.<br \/>\n<br \/>\nAo inv\u00e9s de pedra, planta. Se, no entanto, tiver que ser pedra, que ela possa rolar na correnteza. Com o tempo ela ficar\u00e1 lindamente polida, qual um diamante sem arestas cortantes. N\u00e3o importa o tamanho, a forma ou a cor, todas as pedras que se jogam na correnteza chegam ao final do rio maravilhosamente lindas e perfeitas. Cada uma ao seu tempo.<br \/>\n<br \/>\nPinturas, esculturas, poemas, fotografias, m\u00fasicas s\u00e3o pedras que rolaram muito tempo na correnteza dos artistas que as criaram. Rolaram dentro da cabe\u00e7a deles, passaram por cada rio de sangue e nutrientes, mas fizeram isso t\u00e3o r\u00e1pidamente do ponto de vista da forma como medimos o tempo, que \u00e9 como se um raio os tivesse atingido.<br \/>\n<br \/>\nQuando nos inspiramos, \u00e9 mesmo como se um raio tivesse nos atingido, mas, ao inv\u00e9s de nos fulminar, \u00e9 um raio capaz de recarregar nossas energias com sua poderosa luz. E a\u00ed basta se entregar ao fluxo, deixar-se levar pela correnteza. Longe do fogo que pira e consome e das certezas que enrijecem e s\u00f3 nos sufocam. Perto da vida que pulsa e que pula de fora para dentro e de dentro para fora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img class=\"alignleft\" alt=\"piracoes_inspiracoes\" width=\"610\" src=\"images\/stories\/piracoes_inspiracoes.jpg\" \/><\/p>\n<p>\nTem gente que acha que pirar e inspirar \u00e9 a mesma coisa. E sai por a\u00ed consumindo qualquer porcaria vendida como milagre, passagem secreta para o para\u00edso, liberdade total instant\u00e2nea ou chave m\u00e1gica das portas da percep\u00e7\u00e3o. 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