{"id":531,"date":"2010-05-23T01:48:03","date_gmt":"2010-05-23T01:48:03","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-01T21:37:43","modified_gmt":"2010-11-01T21:37:43","slug":"tratado-sobre-o-perdao-e-a-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=531","title":{"rendered":"Tratado sobre o perd\u00e3o e a intoler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>\nRecentes improp\u00e9rios que recebi de uma leitora sobre um texto escrito dois anos atr\u00e1s me levaram a refletir sobre o mundo que estamos construindo quando n\u00e3o aceitamos nossas diferen\u00e7as. Tenho direito de expressar o que penso sobre as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres neste blog \u2013 para isso, o criei. E a leitora n\u00e3o teria, ent\u00e3o, o direito de expressar sua indigna\u00e7\u00e3o defendendo-se de quem ela sentiu que a atacou?<br \/>\n<br \/>\nDiz-se do que mata para se defender que n\u00e3o teve culpa. Foi leg\u00edtima defesa. Mas o que dizer do que se defende de um outro tipo de arma, a palavra? A l\u00edngua pode cortar mais do que a navalha, pois que a navalha corta na carne, enquanto a l\u00edngua ferina costuma ir mais fundo, cortando na alma.<br \/>\n<br \/>\nAs dores do corpo passam, as da alma podem criar ra\u00edzes e se transformar em sofrimento. Dor flui, sofrimento fica. O que se sente ferido na alma vive, portanto, numa dor que continua indefinidamente no sofrimento. Basta um cutuc\u00e3o de nada para a ferida j\u00e1 dolorida se abrir de novo, expondo suas profundezas. \u00c9 a gota d\u2019\u00e1gua que faz o copo transbordar. A gota em si n\u00e3o \u00e9 nada, mas ao desencadear o transbordo do copo ela recebe toda a culpa.  Uma simples palavra tem o mesmo poder, o poder de transbordar o sofrimento represado. E uma simples palavra pode tamb\u00e9m ser responsabilizada por uma desgra\u00e7a que n\u00e3o tem tamanho. Ela engancha em um emaranhado que come\u00e7ou em algum lugar num passado remoto e desencadeia um processo que culmina com a exposi\u00e7\u00e3o do sofrimento e de tudo o que vem antes dele e que, por orgulho ou por medo, n\u00e3o se quer ver.<br \/>\n<br \/>\nNingu\u00e9m gosta de olhar para suas pr\u00f3prias entranhas, para a sujeira que empurramos debaixo do tapete, para a meleca acumulada embaixo do assento da cadeira. Ela j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 tanto tempo que nos desindentificamos dela, j\u00e1 n\u00e3o a sentimos como uma parte nossa. Mas de repente uma palavra p\u00f5e tudo a perder, desmascara a farsa do auto-engano, nos coloca frente a frente com nossa imagem sem retoques. Podemos aceit\u00e1-la como quem sabe-se imperfeito ou dirigir nossa ira a quem nos revela o lado indesej\u00e1vel. Como at\u00e9 nos sabemos imperfeitos, mas agimos na inconsci\u00eancia de s\u00ea-los, partimos invariavelmente para o ataque. Sentindo-nos atacados, defendemo-nos atacando. Assim se movem as guerras, sejam nos nossos condom\u00ednios ou entre povos e na\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<br \/>\nVeja que falo em \u201csentir-se atacado\u201d. N\u00e3o digo \u201csou atacado\u201d. Porque nem sempre quem empunha a palavra quer nos ferir. E, mesmo que queira, s\u00f3 consegue seu intento se assim o permitirmos. Costumo dizer que jamais me ofendo quando algu\u00e9m me dirige palavras com as quais n\u00e3o me identifico minimamente. \u201cAssassino!\u201d \u201cBandido!\u201d \u201cViado!\u201d Nada disso me causa qualquer dor ou sofrimento. Se, no entanto, ressinto-me com alguma ofensa, tem ali um convite para eu percorrer a linha do novelo e chegar ao in\u00edcio de tudo, \u00e0 dor original, que foi sentida em algum lugar do passado e que agora \u00e9 ressuscitada e sentida de novo, por isso o ressentimento.<br \/>\n<br \/>\nSe n\u00e3o aceito o convite para a auto-reflex\u00e3o, no entanto, o que me resta? Culpar o outro por meu infort\u00fanio, por ter acordado o drag\u00e3o dentro de meu est\u00f4mago? J\u00e1 experimentei esse caminho muitas vezes. Em nenhuma delas, solucionei o meu problema, ou seja, parei de sofrer. Pelo contr\u00e1rio, recalquei meu sofrimento ainda mais, estimulando-o a se esconder mais profundamente e, pior, ganhei a companhia da culpa pela farsa que impingi a mim mesmo e pela dor que impingi ao outro.<br \/>\n<br \/>\nPergunto-me se \u00e9 justo provocar a dor alheia por uma dor que \u00e9 s\u00f3 nossa. Sabemos de cor esta resposta e, no entanto, causamos \u2013 ou, pelo menos, tentamos causar \u2013 a dor no outro.<br \/>\n<br \/>\nEm nenhum momento, dirigi-me \u00e0 leitora no texto que escrevi. Falei de mim, do que penso, do que sinto o tempo todo. Mesmo assim, a leitora sentiu-se ofendida e&#8230; me atacou \u2013 pelo menos, foi assim que senti quando li seu coment\u00e1rio com palavras e express\u00f5es que denotavam raiva e intoler\u00e2ncia.<br \/>\n<br \/>\nTolerar n\u00e3o \u00e9 um verbo muito simp\u00e1tico. Tolerar algu\u00e9m \u00e9 o mesmo que suportar ou ag\u00fcentar algu\u00e9m.  N\u00e3o quero ser tolerado, quero ser escutado. Assim como n\u00e3o quero tolerar o outro, mas escutar o outro.<br \/>\n<br \/>\nNesse dom\u00ednio da escuta, perdoei a leitora que me atacou com improp\u00e9rios. Perdoei-a porque sinto que a escutei a partir de sua dor e, assim, me solidarizei com ela. Espero apenas que ela consiga superar seu ressentimento e acessar ela pr\u00f3pria a sua dor, liberando-a para escutar melhor a si mesma e ao outro, esse outro que talvez seja nosso \u00fanico e verdadeiro caminho para o crescimento.<br \/>\n<br \/>\nQue as diferen\u00e7as em palavras e opini\u00f5es, portanto, n\u00e3o nos separem, mas nos levem a reconhecer a maravilha da completude que s\u00f3 se atinge quando se ama verdadeiramente o outro como uma parte do todo do qual n\u00f3s tamb\u00e9m pertencemos e do qual &#8211; a\u00ed sim &#8211; d\u00f3i demais nos separar.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img class=\"alignleft\" alt=\"tratado_sobre_perdao\" width=\"300\" src=\"images\/stories\/tratado_sobre_perdao.jpg\" \/>Recentes improp\u00e9rios que recebi de uma leitora sobre um texto escrito dois anos atr\u00e1s me levaram a refletir sobre o mundo que estamos construindo quando n\u00e3o aceitamos nossas diferen\u00e7as. 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