{"id":540,"date":"2010-07-12T00:16:46","date_gmt":"2010-07-12T00:16:46","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-01T21:23:41","modified_gmt":"2010-11-01T21:23:41","slug":"as-intermitencias-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=540","title":{"rendered":"As intermit\u00eancias da vida"},"content":{"rendered":"<p>\nAndo \u00e0s voltas com a morte. Ela tem rondado pessoas pr\u00f3ximas ou,  pelo menos, conhecidas. Algumas vezes, mais do que rondado, a morte as tem levado para n\u00e3o sei aonde. Quando elas se v\u00e3o, todos a sua volta, invariavelmente, ou reclamam o quanto ela \u00e9 injusta ou, resignadas, elogiam a resili\u00eancia do moribundo. \u201cLutou at\u00e9 o fim\u201d, dizem uns tantos. \u201cNem reclamou\u201d, dizem outros. Quem morreu, de repente, se transforma em her\u00f3i ou m\u00e1rtir. S\u00f3 \u00e9 lembrado pelos grandes feitos,  pelo car\u00e1ter irreprov\u00e1vel ou, no m\u00ednimo, como algu\u00e9m bom o suficiente para n\u00e3o merecer ter sido levado t\u00e3o cedo. O conceito de cedo varia de 20 a 90 anos. Parece que sempre \u00e9 cedo para morrer.<br \/>\n<br \/>\nNo vel\u00f3rio, todos choram seus mortos. Alguns contam piadas e d\u00e3o risadinhas, como que para disfar\u00e7ar o sofrimento. A popularidade do morto em vida \u00e9 medida pela quantidade de pessoas que v\u00e3o vel\u00e1-lo em morte. Os que o conheceram aparecem para uma \u00faltima despedida. Olham para o corpo estendido no caix\u00e3o, \u00e0s vezes, o tocam e ficam ali, confraternizando-se uns com os outros, \u00e0 espera do \u00e1pice desse estranho encontro, quando todos seguem cabisbaixos em cortejo at\u00e9 o sepultamento.<br \/>\n<br \/>\nSepultamento. Essa palavra me causa calafrios. \u00c9 grave, pesada como a terra jogada sobre o caix\u00e3o, acompanhada em sil\u00eancio p\u00e1 ante p\u00e1.<br \/>\n<br \/>\nSepultamento \u00e9 palavra culta para enterro, mas tamb\u00e9m \u00e9 sin\u00f4nimo de tornar oculto. Me pergunto, ocultar o que? O caix\u00e3o? O morto? A morte? Longe das nossas vistas, o caix\u00e3o n\u00e3o existe, o morto \u00e9 s\u00f3 lembran\u00e7as e a morte, bem, a morte \u00e9 outra vez esquecimento. N\u00e3o se pensa mais nela, at\u00e9 falar \u00e9 meio proibido, pega mal &#8211; s\u00f3 pode se for morte romanceada ou, o que est\u00e1 mais em voga, morte televisionada. De qualquer forma, a morte como espet\u00e1culo ainda vai, mas a morte cotidiana, essa que carrega pessoas a nossa volta, fica no mundo das conversas perigosas, que, reza o bom tom,  \u00e9 melhor serem evitadas.<br \/>\n<br \/>\nMas eis que a morte est\u00fapida, sem hero\u00edsmo, bate \u00e0 porta. Bate sem ser chamada, sem a companhia das c\u00e2meras de tev\u00ea, aparece sem charme e, mesmo assim, acontece e, quando acontece, nos assombra.<br \/>\n<br \/>\n\u00c9 natural morrer. Literalmente. E essa lei vale para todos os seres vivos, quer eles pensem nisso ou n\u00e3o.  Ser dotado de capacidade de reflex\u00e3o e, no entanto, n\u00e3o refletir sobre a morte, isso, sim, deveria ser um espanto.<br \/>\n<br \/>\nViver a vida sem saber que ela pode acabar a qualquer momento \u00e9 coisa de planta ou bicho, n\u00e3o de gente. E saber que a vida pode ser repentinamente interrompida faz de qualquer um livre para viver intensamente cada instante. \u00c9 aquela coisa de n\u00e3o deixar os sonhos para amanh\u00e3, de escolher aquilo que \u00e9 bom e justo para cada momento, de valorizar as pequenas coisas, os pequenos milagres da vida que presenciamos a todo instante.<br \/>\n<br \/>\nJ\u00e1 se falou e se escreveu tanto sobre isso e, mesmo assim, ainda vivemos negando as intermit\u00eancias da vida. Vivemos na ignor\u00e2ncia, consciente ou n\u00e3o, de que a vida \u00e9 para sempre, e que a morte pode ser adiada &#8211; quem sabe, com nossa esperteza &#8211; at\u00e9 enganada! Mudamos nossos h\u00e1bitos, passamos a freq\u00fcentar a academia de gin\u00e1stica, fazemos dieta, tomamos rem\u00e9dios, na cren\u00e7a de que, de fato, assumimos o controle sobre ela, a morte.<br \/>\n<br \/>\nS\u00f3 que, quando estamos ali, em sil\u00eancio, com os olhos vidrados naquele caix\u00e3o que baixa \u00e0 terra, somos n\u00f3s que nos sentimos enganados. Enganados pelo sonho f\u00e1cil que compramos. Enganados por nossos pais, nossos amigos, pela sociedade inteira que encara a morte como tabu e, por isso, a esconde no por\u00e3o, na terra dos bichos pap\u00f5es e dos Fredys Krueggers, como se ela fosse uma mera fic\u00e7\u00e3o para inspirar nossos pesadelos e n\u00e3o a realidade daquele corpo enrijecido e p\u00e1lido aprisionado para sempre no caix\u00e3o.<br \/>\n<br \/>\nDev\u00edamos, isto sim, ensinar a morte nas escolas, conversar sobre ela em casa, nas rodas de amigos. Quem sabe assim aprend\u00eassemos a conviver com ela, aceit\u00e1-la como conseq\u00fc\u00eancia natural do viver, e n\u00e3o mais nos espant\u00e1ssemos quando ela viesse bater a nossa porta, seja apenas para trazer um aviso, seja para cumprir sua nobre miss\u00e3o biol\u00f3gica de renovar continuamente a vida.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img class=\"alignleft\" alt=\"morte\" width=\"300\" src=\"images\/stories\/morte.jpg\" \/>Ando \u00e0s voltas com a morte. Ela tem rondado pessoas pr\u00f3ximas ou,  pelo menos, conhecidas. Algumas vezes, mais do que rondado, a morte as tem levado para n\u00e3o sei aonde. Quando elas se v\u00e3o, todos a sua volta, invariavelmente, ou reclamam o quanto ela \u00e9 injusta ou, resignadas, elogiam a resili\u00eancia do moribundo. \u201cLutou at\u00e9 o fim\u201d, dizem uns tantos. \u201cNem reclamou\u201d, dizem outros. Quem morreu, de repente, se transforma em her\u00f3i ou m\u00e1rtir. 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