{"id":544,"date":"2010-08-13T11:47:21","date_gmt":"2010-08-13T11:47:21","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-01T21:21:19","modified_gmt":"2010-11-01T21:21:19","slug":"viver-sem-esforco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.discutindoarelacao.com.br\/?p=544","title":{"rendered":"Viver sem esfor\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>\nToda vez que meu professor de Biologia-Cultural, Humberto Maturana, diz que vive sem esfor\u00e7o, tor\u00e7o o nariz. Como um mantra, ele vive repetindo: \u201ca vida \u00e9 simples. Viver n\u00e3o requer esfor\u00e7o.\u201d E n\u00e3o \u00e9 que esse senhor de 82 anos, criador da autopoiese e da biologia do conhecer, est\u00e1 mesmo certo?  Como um aluno aplicado, conscientemente, resolvi experimentar um pouco do que \u00e9 viver sem esfor\u00e7o, e para isso n\u00e3o precisei me isolar em nenhum mosteiro tibetano ou qualquer outro ref\u00fagio ermo.  Pelo contr\u00e1rio, escolhi viver sem esfor\u00e7o em meio a uma aut\u00eantica tormenta profissional. N\u00e3o apenas sai ileso dessa experi\u00eancia, como ainda aproveitei para pegar uma onda no mar revolto.<br \/>\n<br \/>\nVida de consultor n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Especialmente, a do consultor avulso, que, quando n\u00e3o est\u00e1 trabalhando em parceria com outros consultores, tem que se virar sozinho. \u00c9 aquela hist\u00f3ria do pianista que carrega o piano e ainda o afina, conserta, reforma e faz o que for necess\u00e1rio para que o concerto n\u00e3o seja prejudicado.<br \/>\n<br \/>\nPois l\u00e1 estava eu, preparando para colocar meu filho menor para dormir, quando toca o telefone com um cliente desesperado do outro lado da linha. O motivo seria um problema que havia ocorrido uma ferramenta de pesquisa via Internet oferecida como prepara\u00e7\u00e3o para meus workshops. N\u00e3o se sabia se o problema era o computador ou o browse do usu\u00e1rio, sua conex\u00e3o com a Internet, o servidor onde a pesquisa estava instalada ou algum bug de programa\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que havia um problema e eu, um consultor avulso nesse projeto, precisava me virar para resolv\u00ea-lo, pois muitos executivos participantes da pesquisa estavam furiosos, como explicava meu cliente.<br \/>\n<br \/>\nEu j\u00e1 vivi v\u00e1rias vezes esse tipo de situa\u00e7\u00e3o.  De repente, a paz \u00e9 rompida e viro ou um super bombeiro, para quem apagar o inc\u00eandio \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou morte ou, na outra ponta, o guerreiro cansado, que j\u00e1 fez tudo o que podia e simplesmente abandona o navio, com a consci\u00eancia tranq\u00fcila de que o problema n\u00e3o \u00e9 dele.  As duas situa\u00e7\u00f5es t\u00eam um ponto importante em comum. O esfor\u00e7o de fazer algo que me causa dor. Na primeira, vivo a press\u00e3o sobre-humana de \u201cter que resolver\u201d o problema ou morrer. Na segunda, a frustra\u00e7\u00e3o de nem ter tentado. Ou me esfor\u00e7o para n\u00e3o decepcionar o outro, ou me esfor\u00e7o para transferir a responsabilidade para ele. Ou perco a sa\u00fade ou a sanidade e a auto-estima. Que l\u00f3gica \u00e9 essa onde um esfor\u00e7o enorme leva \u00e0 perda?<br \/>\n<br \/>\nNesse momento, surge Maturana, ajudado por Ximena, sua parceira de trabalho, para me cutucar com vara curta: \u201co esfor\u00e7o est\u00e1 em fazer algo que n\u00e3o se quer fazer, est\u00e1 no conflito entre fazer n\u00e3o para agradar a si mesmo, mas para agradar ou obedecer a um outro, seja ele uma pessoa, uma imagem ou um padr\u00e3o.\u201d E eu penso: filho da m\u00e3e! Minha primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 de raiva, pois me sinto \u201csinucado\u201d, sem op\u00e7\u00e3o de escolha: \u00e9 matar ou morrer.<br \/>\n<br \/>\nTudo isso se passa em 5, no m\u00e1ximo, 10 minutos ap\u00f3s a liga\u00e7\u00e3o da cliente desesperada. L\u00e1 estou eu refletindo sobre minhas escolhas, quando meu filho de apenas 8 anos se queixa de que est\u00e1 esperando que eu o coloque para dormir. Nesse instante, percebo a necessidade de meu filho em reconhecer sua presen\u00e7a. Desligo-me de tudo o mais e resolvo contar uma hist\u00f3ria para ele dormir \u2013 nada de mais, \u00e9 o que penso na hora. Mas o fato de eu ter me conectado a uma necessidade do momento presente me fez escapar do velho padr\u00e3o \u201cmatar ou morrer\u201d. De repente, me vi frente a uma situa\u00e7\u00e3o, que me era colocada como desafio, e eu podia, sim, escolher entre encar\u00e1-la ou abandon\u00e1-la. S\u00f3 que, desta vez, eu sentia que, se eu resolvesse encar\u00e1-la, eu poderia fazer isso sem qualquer dor ou sofrimento, mas no bem-estar de desejar fazer o que tivesse que ser feito, e fazer com alegria.<br \/>\n<br \/>\nDito e feito. Sem muito pensar, abri uma garrafa de vinho, sentei na frente de meu computador e comecei a resolver os problemas, na confian\u00e7a de que o resultado seria o melhor poss\u00edvel, por\u00e9m sem nenhuma certeza de que o problema seria, de fato, resolvido. Tanto \u00e9 que, embora tenha ficado at\u00e9 de madrugada fazendo corre\u00e7\u00f5es no sistema, passei grande parte do dia seguinte envolvido em conversa\u00e7\u00f5es com diversos participantes que ainda n\u00e3o estavam conseguindo participar da pesquisa. No entanto, como meu estado de \u00e2nimo era tranq\u00fcilo, sem esfor\u00e7o, conforme os problemas apareciam, eu ia lidando com eles, e, muitas vezes, lidar com eles n\u00e3o era resolv\u00ea-los, posto que a solu\u00e7\u00e3o nem sempre surgia, mas de ouvir a queixa do outro, dar-lhe aten\u00e7\u00e3o, reconhecer-lhe a presen\u00e7a e mais nada. Isso j\u00e1 era o suficiente para que a situa\u00e7\u00e3o se modificasse de tempestade para chuva fraca e desta para garoa fina e c\u00e9u azul.<br \/>\n<br \/>\nFicou claro para mim que o fator determinante para essa reviravolta  no clima n\u00e3o foi causada por meu hero\u00edsmo na busca da solu\u00e7\u00e3o para o problema. Em nenhum momento, me vi ou me coloquei na posi\u00e7\u00e3o de detentor de super poderes. Pelo contr\u00e1rio, humildemente, aceitei minha miss\u00e3o e, humildemente, reconheci minhas limita\u00e7\u00f5es em resolver todos os problemas, conforme eles iam surgindo. Essa postura, para minha surpresa, construiu v\u00ednculos importantes ao inv\u00e9s de destru\u00ed-los, como eu temia e, no fundo, acreditava que pudesse ocorrer se eu n\u00e3o me esfor\u00e7asse o bastante. Acontece que \u201cesfor\u00e7ar-se o bastante\u201d nunca \u00e9 o bastante;  \u00e9 sempre mais do que o bastante, sempre mais do que se pode e se deseja em termos de esfor\u00e7o pr\u00f3prio. Percebi que, quando me atropelo, quando, deliberadamente, me aniquilo servindo o velho padr\u00e3o matar ou morrer, me afasto  de quem penso atrair, resultando n\u00e3o no que quero, mas justamente no que mais temo. Afasto as pessoas porque adoto um comportamento n\u00e3o-humano, e me aproximo delas quando me mostro imperfeito, fal\u00edvel, limitado, mas tamb\u00e9m honesto, atencioso, solid\u00e1rio.<br \/>\n<br \/>\nAo ouvir meu relato, uma amiga disse que, infelizmente no caso dela, ainda n\u00e3o era capaz de chegar aonde cheguei. Surpreendi-me com essa afirma\u00e7\u00e3o, pois essa experi\u00eancia me levou a concluir que o estado de viver sem esfor\u00e7o n\u00e3o \u00e9 um lugar onde se chega e se fica para sempre \u2013 talvez, esse seja simplesmente um outro significado para morte. O estado de viver sem esfor\u00e7o \u00e9 algo que se experimenta em momentos onde refletimos sobre o viver com esfor\u00e7o, o que significa que ele (ainda) s\u00f3 pode ser experimentado porque vivemos no esfor\u00e7o o suficiente para  desejarmos viver a cada dia mais sem ele. Agrade\u00e7o, portanto, a todas as vezes que vivi e ainda vivo com esfor\u00e7o. Sem reconhec\u00ea-lo, provavelmente eu jamais teria sido capaz de liber\u00e1-lo.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img class=\"alignleft\" alt=\"barquinho_de_papel\" height=\"250\" src=\"images\/stories\/barquinho_de_papel.jpg\" \/>Toda vez que meu professor de Biologia-Cultural, Humberto Maturana, diz que vive sem esfor\u00e7o, tor\u00e7o o nariz. Como um mantra, ele vive repetindo: \u201ca vida \u00e9 simples. Viver n\u00e3o requer esfor\u00e7o.\u201d E n\u00e3o \u00e9 que esse senhor de 82 anos, criador da autopoiese e da biologia do conhecer, est\u00e1 mesmo certo?  Como um aluno aplicado, conscientemente, resolvi experimentar um pouco do que \u00e9 viver sem esfor\u00e7o, e para isso n\u00e3o precisei me isolar em nenhum mosteiro tibetano ou qualquer outro ref\u00fagio ermo.  Pelo contr\u00e1rio, escolhi viver sem esfor\u00e7o em meio a uma aut\u00eantica tormenta profissional. 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