Para a experiência do outro, é preciso esvaziar o pote

Tuesday, 01 February 2011, 18:12 | Tags: , | 5 comentários
Postado por Fábio Betti 

Quem está só não sabe estar junto. Quem está junto não sabe estar só.

Desaprendi a viver só. Da mesma forma, meus amigos sozinhos não sabem mais o que é viver junto. Imóveis em nosso canto, enrijecemo-nos. Já não somos plásticos o suficiente para experimentar o outro lado, tão distante a ponto de não mais o reconhecermos, esse outro desconhecido que nos causa desconforto só de o pensá-lo, o que dirá vivê-lo.

Fazia muito tempo que não me via sozinho. Até que aproveitei uma viagem a trabalho e tirei alguns dias para conhecer os Lençóis Maranhenses. Sem esposa, sem filhos, sem lenço ou documento, sem internet, lá fui eu aventurar-me no terreno esquecido do viajante solitário. Mas que nada!

No ônibus que me levou de São Luís a Barreirinhas, conheci uma senhora suíça, que viajava com o filho e a nora, uma mulata tipo Sargentelli, exportação. Um dos poucos a falar inglês, entabulei uma conversa de mais de duras horas com a mulher, que me contou tanto de sua vida, que terminamos a viagem praticamente íntimos.

Na Lagoa dos Peixes, uma das poucas que se mantém alagada no período de estiagem, fiz amizade com um padre de Itajubá, que dividiu algumas cervejas geladas comigo e entabulou papos nada ortodoxos sobre a igreja e a espiritualidade. E ainda conheci quatro jovens que, deslumbrados com a beleza das dunas maranhenses, me lembraram da candura das deliciosas descobertas infantis.

Na lancha que percorreu o Rio Preguiça, sentei no meio de um casal de franceses da Guiana Francesa, ele um bombeiro a serviço da base de lançamento de foguetes da Guiana Francesa, ela uma pesquisadora de doenças tropicais. Nós três acabamos conhecendo e nos afeiçoando a outro casal, que veio de Caxias do Sul, no extremo oposto do País, de carro e que, de tão apaixonado, parecia estar em lua de mel. Todos esses encontros em apenas um dia – dia de solidão? Óbvio que não.

Sozinho, sou como um pote que se esvaziou. Estou aberto a receber novos conteúdos. E eles simplesmente aparecem, surgem do vazio criado para ser preenchido. Porque – que me desculpem os solitários – ninguém nasceu para viver só. Podemos estar sós, mas nossa natureza é viver junto. Somos seres agregadores, seres sociais. E, no entanto, quando estamos juntos, nos esquecemos desta característica. E nos isolamos em nossa comunidade, acomodados em nosso pequeno gueto, indisponível para novos encontros.

É preciso se abrir de novo à experiência da solidão, para ver ampliado o mundo do junto. E é preciso, na solidão, abrir mão de nosso espaço, de nosso jeito de organizar a nossa vida, de nossas manias e até de nossa independência, para ter tudo isso em dobro, ter com o outro.

Juntar gente ao nosso redor é fundamental para o nosso crescimento. Só mesmo o outro, esse desconhecido, o eterno diferente, para aprendermos algo novo. E há tanta gente neste mundo que é um desperdício escolher viver isolado em um canto, seja sozinho, seja fechado em um círculo onde quem dele faz parte só olha para dentro.

5 comentários para “Para a experiência do outro, é preciso esvaziar o pote”

  • Mary Help says:

    Muito bom seu artigo. Confirmo o conteúdo do texto que parece uma extensão da experiência que estou passando no meu casamento: homem num canto calado quase o tempo todo dos 7 anos de relacionamento. Não aquento mais esse estar junto tão isolado. Tem lá suas qualidades, senão não poderia caracterizar o tempo. Mas, sinto falta de estar junto no diálogo de idéias novas. E questiono se já não estou só ha muito tempo.

  • Fabio Betti says:

    Oi Mary. Não sei se minha pergunta é chover no molhado, mas você já tentou conversar com ele sobre esse comportamento que a desagrada?

  • Maristelo,msc says:

    Olá, Fábio! Estou de volta a Itajubá.
    Gostei muito do texto. Gostei muito de poder lhe conhecer.
    Em S. Luis fui visitar um bloco de carnaval que fica vizinho ao seminário onde estava hospedado. Contaram-me a história daquele bloco, Tropical do Ritmo: surgiu há quatro anos com familiares e vizinhos de uma mulher que na casa dos 40 faleceu de câncer. Diziam-me que ele surgiu para preencher o vazio que ficou.
    Ao ouvir esse história me lembrei de você. Pensei: o Fábio deveria estar aqui para ouvir mais essa história.
    Acha que o ritmo que eles carregam traz a mistura da alegria que quer consolar a dor. Como já disseram, de fato a saudade é a presença de uma ausência.
    Continue discutindo a relação, fazendo novas relações, esvaziando o pote, enchendo o coração.
    De peito aberto…
    Com ternura e vigor,
    Maristelo,msc

  • Fabio Betti says:

    Que feliz surpresa encontrá-lo por aqui, Maristelo! Ainda mais, trazendo história tão interessante. Depois da Lagoa do Peixe e de Caburé, continuei conhecendo muita gente interessante. Foi tanta gente e tantas histórias que terminei minha viagem com a nítida sensação de que estava há muito tempo longe de casa. Por isso, a saudade… Espero reencontrá-lo novamente, seja por aqui, seja nas viagens que a vida proporciona. Um grande abraço

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