Palmada não é ato de amor

Saturday, 24 May 2014, 13:16 | Tags: , , , , | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

palmadaPara quem tem se mostrado revoltado com a Lei da Palmada, alegando que, ao proibir os pais de baterem nos menores de 18 anos sob sua guarda, retiram-lhes a autoridade sobre os próprios filhos, preciso dizer que também concordo com o absurdo de o Estado resolver se meter nos assuntos domésticos. Acho, no entanto, mais absurdo que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas defendendo que a palmada é necessária para se educar uma criança.

Não sou psicólogo nem um estudioso sobre educação. Sou apenas pai de dois meninos. Falo, portanto, desde esse domínio. Antes de ser pai, fui filho – também falo a partir desta condição. E como filho lembro-me de ter levado algumas palmadas – tanto de minha mãe quanto de meu pai. Não me recordo exatamente os motivos e não diriam que me deixaram sequelas. Por outro lado, não sinto que as palmadas me fizeram respeitar mais meus pais. Talvez tenham me ensinado a temê-los. Ou a mentir e esconder deles ações minhas que, potencialmente, mereceriam ser punidas com palmadas. Por sorte, eram raras e, portanto, não foram suficientes para eu deixar de amá-los.

Como pai, repeti o gesto algumas vezes com meu filho mais velho. Lembro-me que dar palmadas foi algo que fiz quase que instintivamente, sem pensar, como uma reação a uma ação da qual me faltaram momentaneamente recursos para lidar de uma outra forma. Não me orgulho das palmadas que dei, mas também não me culpo. Parece que era o que eu pude fazer naqueles momentos. No entanto, sim, me arrependo. Tanto é que não fiz o mesmo com o filho mais novo. Se eu tivesse respirado, ganhado algum tempo, teria pensado antes de dar a palmada. E, se eu tivesse pensado, não a teria dado. Porque se quero ensinar meu filho a ser um adulto melhor para o mundo, preciso aprender a educá-lo no amor, e, honestamente, não vejo como uma agressão possa ser um ato de amor. Mesmo que não deixe marcas, uma palmada é uma agressão. E ela pode até não deixar marcas físicas, mas como saber as marcas emocionais que um ato de violência impetrado por seu próprio pai ou sua própria mãe pode deixar em uma criança? O pai ou a mãe que deveria amar incondicionalmente esse ser indefeso que a vida colocou sob sua guarda!

Espero que, antes de se revoltarem com o Estado se metendo em suas vidas, pais e responsáveis legais por menores de idade se revoltem com quem ainda acredita que se educa na base da palmada e que um filho é alguém que deve se submeter a sua autoridade, talvez como um bicho de estimação ou uma coisa qualquer. E se, como eu, chegaram a incorrer nesse erro, que não precisem ser advertidos publicamente para se arrependerem e começarem a educar seus filhos de maneira a que eles cresçam como adultos saudáveis e amorosos, porque, definitivamente, o mundo precisa muito mais de amor do que de palmadas.

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