Saímos todos do armário

Tuesday, 28 October 2014, 14:17 | Tags: , , , , | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

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As eleições para a Presidência da República em 2014 entrarão para a história pela vitória apertada e pelo ódio destilado pelos dois candidatos em campanhas para lá de agressivas que acabaram contaminando os ânimos de toda a população – ou teria sido o contrário?

Leviano, mentiroso, corrupto, incompetente, ignorante, xenófobo, homofóbico, cheirador. Estes foram alguns dos adjetivos que apareceram nas campanhas dos candidatos à Presidência da República neste ano. Das campanhas e debates para as redes sociais e para as ruas, e das ruas e das redes sociais para as campanhas e para os debates. Aonde essa guerra começou, difícil saber. Só ficou evidente que aquele bom selvagem, o brasileiro pacífico, acolhedor e com um simpático sorriso sempre estampado no rosto saiu de cena e, em seu lugar, apareceu o pior de nós: nosso lado Leviano, mentiroso, corrupto, incompetente, ignorante, xenófobo, homofóbico e, quiçá, cheirador.

As urnas imitaram a vida, e vice-versa, um sendo o espelho do outro. E o que vimos, em maior ou menor grau, nos espantou a todos. Com ânimos exaltados, deixamos escapar o que se escondia lá nos grotões de nosso inconsciente. O que emergiu não foram só crenças arraigadas e que, de uma forma ou de outra, usávamos como lentes para criar nosso mundo sem que nos déssemos conta de seu poder sobre nós. Tivemos escancarada nossa caixa de Pandora, nosso lado mais perverso e imperfeito. A profecia de Andy Warhol finalmente se concretizou e muitos de nós pudemos usufruir de alguns barulhentos minutinhos de fama. Espumamos nossa raiva sobre o outro, esse diferente de nós que tanto resistia a engolir a nossa verdade. Uma metade nos aplaudiu efusivamente. Outra metade nos comparava ao próprio Satanás. E nós, bem, nós fazíamos o mesmo, travando com fé cega essa luta entre o bem e o mal.

No entanto, nos momentos em que os ânimos repentinamente esfriavam um pouco e podíamos presenciar a cena dantesca a nossa volta, com amizades arruinadas, relações de anos destruídas, rancores e feridas sangrando por todos os lados, alguns de nós nos horrorizamos com o que víamos. E logo corríamos apressados culpando um outro outro – não mais o outro vitimado por nossos ataques – mas esse outro outro que, contra a nossa vontade, nos impeliu ao mal e a quem sempre nos dirigimos na terceira pessoa: o partido tal, o governo, o pessoal de direita, o pessoal de esquerda, o país, a imprensa, etc etc etc. Passada, no entanto, essa tentativa de nos excluirmos de “tudo isso aí que não presta”, alguns de nós viríamos a descobrir que, em algum nível, nossa verdade não funcionava como imaginávamos. E, de repente, nos sentimos abandonados, nus e abandonados. Nós nos percebemos incoerentes.

Quando alguns de nós fomos confrontados com uma parte de nós que não operava da forma coerente como imaginávamos, tínhamos, mais uma vez, a opção da negação ou a possibilidade de aceitar essa condição como um presente, não, uma dádiva, a dádiva de descobrir que nossos valores não eram assim tão diferentes das pessoas que combatíamos ferozmente. Queríamos um país melhor para todos, queríamos mais ética na política, queríamos uma sociedade mais justa e inclusiva. O que nos distinguia não eram propriamente nossos valores, mas a escala utilizada para organizá-los. Para uns a ética vinha antes do combate aos preconceitos. Para outros a inclusão social estava acima de tudo. Na impossibilidade de termos todos os nossos sonhos realizados em um país onde tudo isso acontecia ao mesmo tempo, criamos nossa própria declaração de direitos e deveres, nossa Constituição particular. Para cada um de nós, havia um valor inegociável e valores dos quais, de alguma forma, poderíamos até abrir mão em nome do valor prioritário. Nesse sentido, para alguns de nós, tornou-se surreal continuar brigando por valores que, no fundo, eram de todos nós, mas apenas não apareciam na mesma ordem de prioridade.

Por outro lado, alguns de nós acabamos também revelando valores que, até mesmo, colocados bem abaixo na escala de valores, não me pareceram minimamente dignos. Como justificar o preconceito contra alguém só porque possui uma orientação sexual ou uma cor de pele diferente da minha? Ou porque mora numa região menos desenvolvida economicamente que a minha? Ou uma crença religiosa diferente da minha? Ou ainda porque tem menos estudos formais do que eu? Como aceitar que alguém desqualifique um outro porque esse outro possui alguma característica que eu não aceito em mim? Porque não é isso no fundo que estamos falando? De negar no outro o que negamos em nós mesmos, nossos medos mais profundos, nossas sombras mais secretas?

Quando alguns de nós usamos uma característica que distinguimos de alguém como um rótulo, deixamos de ver verdadeiramente o outro em sua imensa complexidade. Não ver o outro equivale a não legitimá-lo como pessoa, alguém que, na condição humana, vive nos mundos que constrói a partir de suas crenças e valores e tem tanto direito de existir quanto qualquer um.

Vivo condenando as generalizações e, numa dessas ocasiões, escrevi que toda generalização era uma estupidez, ao que alguém me questionou: e você, ao dizer isso, também não está generalizando? Minha resposta foi, ao mesmo tempo, reveladora de minha escala de valores e em certo sentido lacônica: Tô, disse eu. E poderia também ter dito que faço parte, talvez, de um dos grupos mais perigosos, que é o grupo dos intolerantes com a intolerância, gente que coloca uma régua tão alta que, de vez em quando, precisa confessar ou ser pega em algum delito para se lembrar de sua inegável humanidade. Sim, em algum nível somos todos incoerentes e intolerantes e precisamos, de vez em quando, de um chacoalhão para nos lembrarmos dessa condição e, quem sabe, saímos do armário um pouquinho mais.

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