Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer…

Tuesday, 03 January 2012, 10:30 | Tags: , , | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

eu_te_amo_o_queAcordei com a música de Zeca Baleiro martelando na cabeça. Não me lembro se sonhei com ela ou com este texto. “Eu amo você, mas não sei dizer o que isso quer dizer”, continua a música. Depois de iniciar meus estudos na Biologia Cultural de Maturana/Davila, acho que, finalmente, sei o que ele quis dizer com isso…ou não!
Quando eu digo “eu te amo”, o que o outro para quem digo isso entende do que estou dizendo? O que será que é “eu te amo” para ele? Será que ele acha que “eu te amo” é “você é tudo para mim?” ou, simplesmente, “eu gosto de você”?

Quando eu digo “eu te amo”, nem eu mesmo sei ao certo o que estou querendo dizer… Às vezes, é quase um impulso, uma resposta biológica involuntária a um estímulo, que pode ser tanto uma imagem, uma lembrança ou um beijo. Outras vezes, “eu te amo” vem com a gravidade ancestral de alguém que poderia já ter vivido muitas outras vidas, a ponto de saber, de fato, o que é o amor e, assim, ser capaz de distingui-lo entre outros sentimentos e sensações. Mas nenhum “eu te amo” é exatamente igual a outro. Mesmo que a pessoa para quem digo “eu te amo” seja a mesma, na verdade, não há nem a mesma pessoa nem o mesmo eu. Cada vez que digo “eu te amo”, é para alguém que, de alguma forma, já se modificou, da mesma forma que eu também me modifiquei. Somos outros seres em outros momentos, o que reforça que estamos frente a um novo “eu te amo”, com novos significados, tanto para mim, que digo, quanto para o outro, que ouve. Mas ainda me indago: o que esse outro ouve quando digo “eu te amo”?

Mesmo que tudo isso pareça um intrincado jogo de palavras, como na música de Zeca Baleiro, procuro entender os mistérios do amor e da relação amorosa. Como é possível duas pessoas se manterem unidas sem saberem, ao certo, o que sentem e como sentem o que sentem uma pela outra? Sinto que se eu conseguisse entender essa equação oculta, todos os meus conflitos amorosos seriam, finalmente, resolvidos. Já pensou atingir esse grau de comunicação? Quando você fala, é totalmente compreendido pelo outro. Não há qualquer dúvida a respeito do que você quis dizer, nem para o outro nem para você. Você e o outro podem, então, se unir pelos laços da compreensão mútua e não mais pelas dúvidas, inseguranças e pelos medos.

No entanto, mais misterioso do que os mecanismos da comunicação entre os amantes é o fato de, mesmo sem se saberem ao certo o que sentem e como sentem um pelo outro, eles se mantém juntos. Muitos e, eu diria, cada vez mais, se separam, rendendo-se à impossibilidade concreta da compreensão mútua, mas muita gente também resiste nesta convivência que caminha, entre altos e baixos, para um não sei qual lugar. E aí, mesmo ainda sem fazer a menor idéia de como resolver o enigma da comunicação, me ocorre que nos mantemos unidos ao outro nesta conexão desconexa justamente porque é nesse jogo de resolução impossível que reside o maior ganho da convivência: o aprender. É no espaço do não-saber que está a oportunidade de descobrirmos algo novo e, assim, crescermos como indivíduos e coletivos. É no espaço da dúvida que se escondem as grandes descobertas. A viagem é sempre mais prazerosa que a chegada, o caminho mais que o destino, assim como o nirvana muitas vezes vivenciado pelos amantes no encontro dos corpos normalmente se extingue quando irrompe o gozo.

Um comentário para “Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer…”

  • maria says:

    Gostei muito! Está muito bonito! Eu nuca senti vontade de dizer ao meu amor que o amava…às vezes, não é necessário falar que amamos o outro ou ouvir o outro dizer que nos ama…ouço tanto essa frase nos filmes, leio nos livros que fico a pensar por que razão nunca senti muito essa necessidade de dizer “amo-te”. Foi por vergonha? Não sei…eu acredito nos olhares, nos gestos, no comportamento…por exemplo: se ele me faz algo que não faz a ninguém mais é porque me ama mas se ele se esquece de me abrir a porta, se se esquece de que olhar para mim, de me contar como lhe correu o dia, de me reservar um lugar no sofá, se não se impacienta com a minha demora…então eu pergunto: ainda gostas de mim? Acho que se sente quando o outro nos ama…ele quer o nosso bem , ele aceita-nos, ele ouve-nos, pede desculpa e não volta a fazê-lo…às vezes estamos distraídos e temos de ter cuidado porque o amor gosta de ser acarinhado…é preciso estar atento aos olhares…baixa a cabeça quando o olhamos? é necessário conversar…e depois é preciso também aceitar se ele disser que se enganou que deixou de nos amar que quer ser nosso amigo…Para muita gente é mais fácil dizer “Amo-te” do que olhar para o outro enquanto conversa com ele, quem ama sente desejo de estar com o outro, ao lado dele, tocar-lhe na mão, O amor exige tempo, persistência e coerência..é muito importante dar o nosso tempo ao nosso amor! Em troco “amo-te” por uma companhia no sofá, pela mão dele na minha, por um abraço bom e espontâneo, por uma troca de olhares num encontro entre amigos (ninguém se apercebeu só nós os dois, então eu penso “Ele ama-me!”). Sim, amar é aprender a conhecer-nos e a conhecer o outro que amamos, é recordar sentimentos do passado se o amor já dura há muito…às vezes até parece que voltamos ao início da paixão: sentimo-nos de novo jovens!Quando se ama, amam-se as rugas, a barriguinha, as varizes porque ama-se o ser, o “invisível aos olhos dos outros!

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